Dom José Alberto Moura
Arcebispo de Montes Claros (MG)
Quem tem poder, usando-o com compaixão, dá vida e promove a dignidade dos outros. É o que Jesus fez ao entrar na cidade de Naim. Levavam o corpo de um filho único de mãe viúva. Vendo-a chorando o Mestre se compadeceu e deu a ordem ao morto: “’Jovem, eu te ordeno, levanta-te’. O que estava morto sentou-se e começou a falar” (Lucas 7,14.15).
Vivemos na realidade de sofrimento de muitos, por vários motivos e acontecimentos. Pessoas más não raro provocam mortes, desrespeito, roubos, muitas formas de injustiças... Muitos têm poder para construir ou destruir vidas, famílias, ideais, comunidades e organizações. Nas diversas esferas de poder público ou privado temos pessoas, grupos, corporações e partidos que têm possibilidade de usar sua força para o bem ou para o mal. Se todos se treinassem para terem um olhar sensível às necessidades do semelhante, desenvolveriam um coração humano e compassivo, a ponto de usar suas posições sociais para um real serviço à causa da vida digna das pessoas, principalmente as caídas e mortas em sua impossibilidade de viver dignamente.
Precisamos formar as pessoas para terem a altivez de caráter, usando os dons e possibilidades na vida para ajudarem a construir convivência de entendimento e solidariedade. Às vezes um gesto concreto de irmandade pode levar o próximo a ter vez e voz no convívio social. Na política precisamos de mais pessoas que usem do cargo de servidoras do povo para ajudarem a superação de tanta injustiça em relação a grandes parcelas. As elites precisariam sempre colocar a mão na consciência para serem mais solidárias com as necessidades dos marginalizados, que não precisam simplesmente de esmolas e de ficar mendigando auxílios para assistência de saúde, de educação, de segurança, de transporte e outros.
O uso do poder com humanidade leva as pessoas a criarem condição de real possibilidade de promoção do bem a quem é carente e deixado de lado na convivência social. Se as organizações do bem tivessem mais apoio, poderiam ajudar mais a alavancar a superação da marginalização social. Aí valeria a posição de “dar ordem” à “desordem” das injustiças.
A fé consistente leva a pessoa humana à prática da solidariedade, buscando a força do divino para humanizar as relações sociais. O apóstolo Tiago fala que a fé sem obras é morta.
O profeta Elias, homem de Deus, pediu a ressurreição do filho da viúva que o hospedava. Conseguiu o milagre, após sua férvida oração: “O Senhor ouviu a voz de Elias; a alma do menino voltou a ele e ele recuperou a vida” (1 Reis 17,22).
Um grande segredo para revelarmos a prática do reerguimento social é a formação para os valores éticos e morais, a partir da família bem formada para isso e o senso crítico adequado. Ao contrário, quem vai influir determinantemente na conduta individual vão ser os aliciadores consumistas e a mídia. Se as pessoas, desde o berço, não forem formadas para a compaixão e o altruísmo, vamos ter uma sociedade composta de gente egoísta, hedonista e fechada para a solidariedade. Formar para se ter o poder de servir com bondade é fonte de realização até para a própria pessoa que assim atua.
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