Dom Caetano Ferrari
Bispo de Bauru
Na oração do Credo, professamos a nossa fé no Deus Uno e Trino: Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis. Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos. Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida e procede do Pai e do Filho; e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado.
Hoje, celebramos na Liturgia a solenidade da Santíssima Trindade. O Evangelho da Missa - Jo 16,12-15 - que pertence ao discurso de despedida de Jesus, ilumina o mistério trinitário. Jesus fala do Pai, com o qual tem tudo em comum, e do Espírito Santo que virá com a missão de anunciar só o que dEle ouviu e, por isso, guiará ao conhecimento da verdade completa, e até as coisas futuras anunciará. Aqui aparecem as três pessoas divinas distintas identificadas e apresentadas por Jesus. Até onde os nossos olhos de fé alcançam, podemos vislumbrar o mistério de nosso Deus, um só na identidade da mesma natureza divina e uma só comunidade na mais perfeita comunhão de vida, verdade e amor. Na Trindade reina um clima de união, comunhão, partilha e fidelidade. Jesus, que é um com o Pai, partilha o que é seu com o Espírito. Este, por seu turno, comunica e atualiza à comunidade cristã o que ouviu e recebeu. Inspirada no mistério trinitário, a Igreja ensina que a Trindade é a mais perfeita comunidade, paradigma, modelo, figurino para toda família, comunidade e sociedade.
Permita-me, estimado leitor e leitora, tomar para reflexão nesta oportunidade outro ponto fundamental da verdade da nossa fé, do ensinamento da Doutrina Social da Igreja, inserido no campo da “Fé e Política”, mas não sem antes convidá-lo a suplicar ao Espírito da verdade que nos guie na compreensão da verdade completa, pois que “a verdade é que nos libertará” (Jo 8,32).
O assunto pode ter como pano de fundo a situação em que nos encontramos com o processo do “impeachment”, ainda em curso, a nos provocar. A Igreja como instituição é questionada: contra ou a favor? A recente Nota da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) sobre o momento atual do Brasil é clara.
A Nota inicia tomando do Papa Francisco a ideia de que ninguém pode exigir dos cristãos que releguem a religião ao âmbito do privado, à intimidade individual das pessoas. Pois, como afirma o Papa, a Igreja tem o direito e o dever de se preocupar com a saúde das instituições da sociedade civil, de influenciar na vida social e nacional e de se pronunciar sobre assuntos do interesse geral (cf. Evangelii Gaudium, 183). Aliás, essa doutrina pode ser lida no Catecismo, nº 2246: “Faz parte da missão da Igreja ‘emitir juízo moral também sobre as realidades que dizem respeito à ordem política, quando o exijam os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas, empregando todos os recursos – e somente estes – que estão de acordo com o Evangelho e com o bem de todos, conforme a diversidade dos tempos e das situações’”. No nº 2245, o Catecismo afirma ainda que a Igreja, contudo, não se confunde de modo algum com a comunidade política, não tem um partido, mas ela “respeita e promove a liberdade política e a responsabilidade dos cidadãos”.
No Compêndio da Doutrina Social da Igreja, lemos também que a Igreja está a serviço do Reino de Deus, difunde os valores do Evangelho e ajuda as pessoas a acolherem os desígnios de Deus (cf. nº 50). O nº 573 desse mesmo documento declara que nenhum partido ou corrente política corresponde completamente às exigências da fé e da vida cristã. E os cristãos ao fazerem as suas escolhas político-partidárias devem levar em conta se o projeto de tal ou qual partido corresponde às exigências éticas da fé e da pertença à Igreja, se prioriza o bem comum, se permite inclusive implementar formas de serem alcançados os fins espirituais do homem. Partindo desses princípios, a Nota da CNBB proclama o respeito à autonomia política. Sem entrar no mérito da questão do “impeachment” para dizer sim ou não, declara, no entanto, que “a superação da crise passa pela recusa sistemática de toda e qualquer corrupção, pelo incremento do desenvolvimento sustentável e pelo diálogo que resulte num compromisso entre os responsáveis pela administração dos poderes do Estado e a sociedade”. Ressalta que “O momento atual não é de acirrar ânimos”, que “A situação exige o exercício do diálogo à exaustão”. Por isso, conclama “a todos que zelem pela paz em suas atividades e em seus pronunciamentos”, destacando que “Cada pessoa é convocada a buscar soluções para as dificuldades que enfrentamos”, e que “Somos chamados ao diálogo para construir um país justo e fraterno”. E finaliza invocando Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, para que continue intercedendo pela nossa nação.
O ensinamento da Igreja sobre este tema de “Fé e Política” é abundante, está presente em vários documentos e pronunciamentos da Igreja. Cito, por exemplo, mais estas mensagens:
Do Catecismo: “Não cabe aos pastores da Igreja intervir diretamente na construção política e na organização da vida social. Essa tarefa faz parte da vocação dos fiéis leigos, que agem por própria iniciativa com seus concidadãos... Cabe aos fiéis leigos ‘animar as realidades temporais com zelo cristão e comportar-se como artesãos da paz e da justiça’” (nº 2442).
De São João Paulo II: “A Igreja respeita a legítima autonomia da ordem democrática, mas não é sua atribuição manifestar preferência por uma ou outra solução institucional ou constitucional” (Centesimus Annus, 47).
Do Papa Bento XVI: “A Igreja não pode nem deve tomar nas suas próprias mãos a batalha política para realizar a sociedade mais justa possível. Não pode nem deve pôr-se no lugar do Estado. Mas também não pode nem deve ficar à margem na luta pela justiça. Deve inserir-se nela pela via da argumentação racional e deve despertar as forças espirituais, sem as quais a justiça, que sempre requer renúncias também não poderá afirmar-se nem prosperar” (Deus é Amor, 28).
Fonte: CNBB
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