Dom José Alberto Moura
Arcebispo de Montes Claros (MG)
Jesus anuncia antes o que acontecerá com Ele, sua morte e ressurreição. Poderia mudar sua rota. Não o faz em obediência ao Pai, que lhe indica a doação total, como modelo de amor. Não renuncia o sacrifício em bem da coerência de vida ensinada e praticada com a defesa da justiça e do bem humano. Sair da missão significaria ceder aos opositores de Deus, que pensam ser a vida uma sucessão de atos para se avantajarem do que é de todos, com o acúmulo de tudo para si.
Nesse encaminhamento não há sacrifício de si pelo bem do outro. Enquanto não o houver satisfatoriamente, a comunidade sofre por causa do egoísmo de minorias. Jesus veio contrastar-se a isso. Seu sacrifício, porém, não foi à toa. Ele dá a vida para que aprendamos a também dar a nossa para o bem comum. Ao contrário, só teremos guerras, concentração de rendas e de tudo o mais. Não há altruísmo, justiça, doação de si, solidariedade e paz de modo abrangente.
Há uma diferença entre nosso sacrifício e o de Cristo. Ele tinha o poder de tudo converter para o triunfo e o retorno à vida. Nós, sozinhos, não somos capazes disso. Mas, com a vitória dele sobre a morte, provou-nos que tem poder divino. Ele, autorizadamente, nos promete o mesmo. Por isso, não seguimos apenas um líder ou fundador de religião humano. Baseamos, então, nossa caminhada, imitando-O, porque Ele ressuscitou. Não O seguimos porque nos refugiamos em qualquer religião, mas sim porque queremos praticar seus ensinamentos, sendo também luz para os outros, dando certeza do efeito de O seguirmos.
O Mestre afirma: “Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas, se morre, então produz muito fruto. Quem se apega à sua vida perde-a; mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna”! (João 12,24.25). Ele foi coerente com seus ensinamentos e deu totalmente a vida, num martírio de pleno modelo, para não temermos dar de nós em bem do semelhante. Enquanto não vivermos para servir à causa da dignidade humana não mostramos a que viemos a esta vida. Sem lutarmos pelo ideal de promovermos o bem de todos, a partir dos mais fragilizados, não mostramos nossa grandeza de alma e de caráter, mesmo se, para isso, devamos sacrificar-nos e darmos de nosso tempo e energia para colocarmos em prática a missão de servirmos.
A Campanha da Fraternidade nos envolve nessa grande responsabilidade de sermos servidores da humanidade, com os dons e oportunidades que temos. Quanto mais união de esforços, na vida de solidariedade, mais efeitos temos em nossa ação de mudança da sociedade, em vista da promoção da justiça e de oportunidade de vida digna para todos. Estamos num tempo propício, de preparação para a Páscoa, numa vida convertida à alteridade. Um dos meios mais eficazes para isso é ajudarmos a promoção de boa política com bons políticos que têm grandeza de caráter para ajudar a promover o melhor serviço público. A reforma política proposta pela CNBB e tantas outras entidades merece nossa adesão, para fazermos da coisa pública um verdadeiro serviço à sociedade.
Se o grão de trigo não morrer, não nascerá a planta do amor!
Fonte: News.VA
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