sexta-feira, 7 de novembro de 2014

O último dos teus dias

Cardeal Odilo Pedro Scherer
Arcebispo de São Paulo (SP)

A comemoração dos fieis defuntos, ou Dia de Finados, trouxe mais uma vez a ocasião para refletir sobre a morte e sobre a vida. Neste ano, a celebração transcorreu num Domingo e, talvez, seja esta uma explicação para a diminuição de visitantes aos cemitérios da Capital nesse dia; ao menos, foi esta a informação que recebi.

Não deixa, no entanto, de ser um fato intrigante, pois nosso povo, geralmente, cultiva profundos e variados sentimentos em relação aos falecidos. Será que a morte ficou banalizada, a ponto de as pessoas esquecerem rapidamente aqueles que já faleceram? Serão o ritmo da vida e as preocupações do dia-a-dia que não deixam mais espaço para lembrar que não somos eternos neste mundo, nem peças de uma máquina cega, surda, que vai descartando de modo insensível que já não lhe interessa? Que somos pessoas, com uma história pessoal, com angústias, anseios e esperanças no coração?
Parece que não há mais tempo para viver, nem para morrer. Tudo vai tão depressa, tudo vai para frente; quem ficou pra trás, já se foi e não conta mais... É a vontade de viver, tragando a vida pessoal e fazendo perder de vista o seu sentido... No Dia de Finados, os mortos recordam aos vivos algumas lições fundamentais.
Nossa vida é preciosa, é pessoal, é única. Ela nos foi entregue como um dom, para que dela façamos o melhor que pudermos, como empreendedores laboriosos, que fazem render os talentos recebidos. A vida não deve ser desperdiçada; não é um ensaio, não há uma segunda chance. E cada um deverá prestar contas a Deus pela própria vida e por aquilo que tiver feito dela.
Vida e morte se encontram misturadas na realidade que nos cerca. Nos dois cemitérios, onde celebrei a Missa no Dia de Finados, havia diversos velórios de pessoas falecidas na véspera. Enquanto anunciávamos a fé no Deus da vida e na ressurreição de Jesus, garantia da nossa ressurreição futura, as pessoas, nos velórios ao lado, choravam a morte de familiares e amigos...
Enquanto numa das salas do cemitério era velada uma senhora falecida, perto do esquife da mãe chorava, inconsolável, a filha grávida de 9 meses. Fim da vida e sua continuidade ali se encontram, misturando dor e alegria. A morte leva, a vida traz. A esperança dá coragem para continuar vivendo. O encontro com a morte transmite um sadio realismo e ensina a não se refugiar em ilusões, tentando não enxergar.
A fé nos ajuda com uma luz sobrenatural, que nos faz enxergar para além do que, humanamente, seríamos capazes. A vida é mais forte que a morte. Sobretudo, porque cremos no Senhor da vida, que tem poder para fazer ressurgir a vida mesmo onde restam apenas ossos ressequidos e pó de morte. Quem se une a Deus recebe dele a vida. Não somos autores da vida, nem no seu início, nem no seu final terreno. Sem a fé, a morte permanece um enigma insolúvel.
A visita aos cemitérios não nos faz pensar apenas naqueles que já faleceram: também nos confronta conosco mesmos, com o sentido da nossa vida e com o modo como estamos vivendo. Quem pode conhecer qual será o último dos seus dias neste mundo? Um dia, será também nossa vez de deixar este mundo. Como nos preparamos para esse momento que, na visão da fé, deveria ser o dia mais importante da vida, pois será o momento de se encontrar com Deus, de sair da penumbra para entrar na plena luz da glória de Deus.
O pensamento da morte, de certa forma, aterroriza. No entanto, isso não é preciso; esse pensamento pode também ser salutar, conforme já advertia o sábio: pensa no último dos teus dias e vive bem o dia de hoje...
Viver cada dia como se fosse único e o último da vida, isto nos pode ajudar a manter-nos alertas diante das escolhas que fazemos e decisões que tomamos. Vivendo bem cada dia, estaremos sempre preparados para o grande encontro que nos espera.

Publicado em O São Paulo
Fonte: CNBB

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