Por Guilherme Cavalli
Na
madrugada do dia 2 de janeiro, quatro jovens missionários do Brasil
partiram para viver o impulso missionário no Paraguai, em comunidades
campesinas juntos aos moradores da cidade de Quyquyhó. Eu, Guilherme
Cavalli, tive a graça de ser um desses jovens enviados a viver essa
experiência representando a Juventude Missionária (JM) do estado do Rio
Grande do Sul. Juntamente com meus irmãos em Cristo, João Guilherme de
Mello, do estado do Paraná, Wesley Araujo, do Mato Grosso do Sul, e
Marcelo Bleme, de Minas Gerais, formamos a equipe missionária da JM do
Brasil (POM) assim contemplando a JM-POM Brasil.
Como despertou esse desejo de partir? Por que nos dispomos a esse trabalho? Na esperança de cumprir o mandato de Jesus Cristo e se fazer servidor, buscamos distanciar-nos para, com a amplidão das situações, na máxima gratuidade, nos compreender como sujeitos de nossa própria evangelização; como cristãos atuantes com direitos e deveres; como Jovem Missionário comprometido em estar perto daqueles que estão longe; como indivíduos que, nas suas circunstâncias, buscam discernir sua vocação, e cumprir a primeira, ou seja, cultivar e proteger a vida.
No
contato com outras culturas, buscamos entender o valor das diversas
tradições, do respeito pelo que se vem cultuando, e nessas vivências
procuramos desvelar partes constituintes da diversidade da Igreja
Católica, inserida nas múltiplas faces da América Latina.
Deixar
as pompas, o luxo ou mesmo a rotina, e em constante procura, correr
atrás da essência que move comunidades hoje, moveu ontem e moverá
amanha. Despojar-se de preconceitos, transbordar felicidade por estar
presente, compartilhar sorrisos, ouvir, quebrar o egocentrismo moderno,
abrir-se ao outro que também é eu, deixar tudo mesmo que seja por dias
-, ser feliz fazendo o outro feliz. Tudo equivale a vivência da
alteridade na missão, foi a isso que nos dispomos.
A
pertinência da pergunta que faz refletir onde estamos depositando a
força da nossa Jovialidade nos fez compreender que Missionariedade, a
força que envia, força daquele que é enviado, não é própria de si, mas
uma força que lhe é dada por aqueles que contribuem para que esse
trabalho se realize, por Deus Amor que chama instrumentos para agir em
prol de seu Reino, instrumentos de sua ação. Logo, o primeiro e
principal agente da missão é a atuação do Espírito Santo que age sobre o
cristão.
Podemos
perfeitamente entender e presenciar o rosto de Cristo nas diversas
experiências que tivemos: nas dificuldades que encontramos e que eram
vencidas na bravura de um povo que luta, na alegria do singelo sorriso,
na luz dos puros olhares, nas lágrimas que escorriam nos rostos
enrugados das solitárias avós, nas mãos calejadas dos humildes
agricultores, na criança que corria abrir os portões para a chegada do
missionário, na cultura do compartilhar que une 140 famílias em prol do
comunitário, no dividir do sorvete que é servido em um único recipiente,
na teologia do tererê que, passando de mão em mão, forma comunidade.
Inevitável
é não procurarmos a felicidade pessoal . Mais fora de lógica é não
buscarmos realizar-nos. O que mais me impressiona nessa luta, por vezes
dês-humana, é que, na gana de vencermos, pensamos poder avizinhar-se
desta felicidade - sozinhos, em um monologo de glória. Quase nunca
entendemos que a estrela só é constelação na união, ou que o grão de
areia só é praia no somar de partículas mínimas. Rebeliões de um homem
só não existem. Jardim com apenas uma rosa, também não. A vida, em todos
os seus sentidos e gêneros, precisa ser compartilhada, contada e
recontada, até mesmo reinventada. Para tanto, existe apenas uma
exigência: o diálogo entre bocas que falam e ouvidos que escutam deve se
dar como intima relação de alteridade. Como nos darmos conta disso?
Conhecer o outro, a nova cultura, determinados costumes, exige abertura.
A missão é doar-se, é ação kenótica, mais do que qualquer outra
atitude. Dispor-se a novidade, ser ouvido que acolhe mais do que boca
que professa. E assim posso realizar-me? Perguntou-se o inquieto
viajante. A vida é missão, então no passar do tempo necessário,
respondeu que sozinho nada seríamos. Que na relação com o que se
encontra distante, romperíamos cercas; que no distanciar do cotidiano, o
notaríamos; que no romper do auterego, nos descobriríamos; mas acima de
tudo, que no ato de professarmos nossa fé no Deus da vida que se
encontra no olhar daquele que mais necessita, daríamos sentido a nossa
caminhada.
Assim,
no amor aos povos, gritamos a exigência de que se respeite a
diversidade, de que a vida seja a principal escolha, de que o gemido
daquele que morre na margem da sociedade se transforme através do nosso
ato de compaixão, em música daqueles que lançam malabares nos sinais,
dos ocupantes de sarjetas, dos catadores de papéis, enfim, de todos os
sujeitos, diante dos quais somos indiferentes. Todos em uma só roda, a
liberdade cantará a utopia de um mundo justo e solidário. Então, mais
fortemente nessa experiência, compreendemos que a vida se completa na
entrega, na troca, no dividir, no escutar: na Missão.
*Guilherme Cavalli é coordenador da Juventude Missionária no RS Fonte: POM
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