Nesta parábola, temos a oposição radical entre dois
orantes e dois tipos de oração: a oração arrogante e autossuficiente do
fariseu e a oração confiante e humilde do publicano. A oração do fariseu
é típica das tradicionais orações de Israel. Aparentemente, é uma
oração de agradecimento a Deus. Contudo, por seu conteúdo, adquire outro
sentido.
O fariseu “agradece” por ser um justo, observante, diferenciado e
separado dos “pecadores” como o publicano que ali estava presente.
O fariseu coloca-se diante de Deus numa atitude de senhor e não de
servo. Faz negócio com Deus: “Eu te dou as minhas boas obras e Tu és
obrigado a dar-me a salvação eterna”. Toma uma posição de igualdade com
Deus, na medida em que se sente com direitos diante d’Ele.
O fariseu colocou-se como ponto de referência em relação ao pecador e
ao próprio Deus na condição de superioridade em relação ao pecador, e
na de quase igualdade perante Deus.
Sua oração é uma oração de autossuficiência e de desprezo aos outros,
que, em nome de Deus, fundamenta uma posição de privilégios e poder.
O outro orante, o publicano, tem a atitude de um pobre que confia
totalmente em Deus. Ele, humilhado e excluído pelo sistema religioso que
o considera um pecador, é consciente de sua pequenez e de sua
dependência de Deus. À medida que o “justo” rompe a comunhão com o
próximo, ele rompe a comunhão com Deus.
O pecador relaciona-se apenas com Deus e não se mete na vida do vizinho.
O pecador, pelo contrário, pensa e pensa bem. Pois ele nada tem para
dar em troca a Deus e que não tem quaisquer direitos a reclamar d’Ele.
De seu tem apenas o pecado e d’Ele espera apenas o perdão. A parábola
não é, pois, sobre a oração, mas sobre a justificação diante de Deus e
pretende responder à eterna pergunta: “Como fazer a vontade de Deus
neste mundo?” Cada um dos personagens apresenta-nos a sua resposta e a
sua atitude de vida.
O pecador se salva, torna-se justo diante de Deus, não pelas obras
humanas, pelo seu esforço no cumprimento de determinados preceitos, mas
pela graça de Deus; ou seja, só pelo poder de Deus é que o homem é
salvo, e não pelo que é ou faz. Acolher Jesus e a sua Palavra numa fé
confiante, é o único caminho da salvação.
Alguém perguntará: “Então, as nossas boas obras nada valem diante de
Deus?” O problema não deve ser colocado desse modo. Aqui não se trata de
um problema de conteúdo, isto é, de obras, mas da perspectiva com que
se fazem as obras. Expliquemos: o fariseu não foi condenado pelas boas
obras que praticou, mas por confiar apenas nelas e nas suas próprias
forças para fazê-las. Foi condenado por não as atribuir a Deus nem as
relacionar com Ele.
A lição que devemos tirar deste texto é: o cristão deve estar atento
para não abrir a porta à tentação da soberba perante o outro homem e da
autojustificação perante Deus. Pelo contrário, optará por uma atitude de
caridade e grande compreensão em relação às outras pessoas como sempre
fez Jesus e por um esvaziamento de si, para que Deus o encha do seu
perdão e da sua misericórdia. Louvor e Glória ao Senhor!
Padre Bantu Mendonça- Canção Nova
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