Irmãs e irmãos, no Evangelho
de Mc 12, 28b-34, Jesus é questionado por um escriba, o qual,
aparentemente, fez-lhe uma pergunta de fácil resposta: «Qual é o
primeiro de todos os mandamentos?» (v. 28b).
Na verdade, existiam 613 possibilidades
de respostas, pois, na lei mosaica, identifica-se 365 proibições e 248
mandamentos no tempo de Jesus. No entanto, Cristo, o intérprete da Lei
Antiga e revelador da Nova lei do Espírito (cf. Rm 8,2), fez a junção de
duas passagens da Torah (Dt 6, 4-5; Lv 19, 18) e assim respondeu com
sabiamente: «O primeiro é: Ouve Israel, o Senhor nosso Deus é único
Senhor. Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, com toda a tua
alma, com todo o teu pensamento e com toda a tua força. Eis o segundo:
Amarás o teu próximo com a ti mesmo» (v. 29-31). Assim o amor é
manifestado como a essência da Palavra, afinal é ou não é o amor a
essência de Deus?
Jesus, sendo a revelação plena do Amor
Trinitário, não deixou escapar a oportunidade de dizer ao interlocutor
de ontem e de hoje que fora do amor não existe interpretação correta das
Sagradas Escrituras, nem do Antigo nem do Novo. Uma hermenêutica do
amor é urgente e sempre atual!
Retornando ao texto bíblico, percebemos
também que, pelas citações utilizadas pelo Mestre dos mestres, as
Palavras não eram novidades para o povo da Antiga Aliança, mas o
original, em Cristo, repousou sobre a união destas verdades em meio a
tantas, a ponto de Jesus chancelar a tal inspiração com palavras
contundentes: «Não existe outro mandamento maior do que estes» (v. 31).
Assim, Jesus tornou duplo o mandamento
supremo do Amor, partindo – na resposta ao escriba – da oração que o
judeu reza, pelo menos duas vezes ao dia: «Escuta, Israel! O Senhor,
nosso Deus, é o Senhor que é um» (Dt 6,4). Confirmando, ao Primeiro
Israel, o caminho da verdade revelada que move o ser humano a responder a
Deus a partir da oração. Mas Jesus, pela junção das passagens bíblicas,
demonstra que a falta da consciência da necessidade do amor ao próximo,
torna anula – na prática – o testemunho do amor a Deus!
Quanto ao Novo Israel, uma novidade
basilar é o surgimento de um novo centro que orienta quanto a vivência
da Lei e os Profetas. Mais do que uma bússola hermenêutica, Ele é o
próprio Filho, apresentado pela Santíssima Trindade à toda humanidade,
na ocasião do início da vida pública de Jesus: «Logo que foi batizado,
Jesus saiu da água. Eis que os céus se abriram e ele viu o Espírito de
Deus descer como uma pomba e pairar sobre ele, e eis que uma voz vinda
dos céus dizia: Este é o meu Filho bem amado, aquele que me aprove
escolher» (Mt 3, 16-17). Já no alto do Monte Tabor, qual um novo sinal, o
Pai confirma o Seu Messias, o qual inaugura um novo lugar de escuta:
«Veio encobri-los uma nuvem, e uma voz soou, vinda da nuvem: Este é meu
Filho bem-amado. Ouvi-o!» (Mc 9,7).
De fato, Cristo veio levar a Lei e os
Profetas ao cumprimento, sem depender para isto de ideologias, mas de um
testemunho vivaz, como o Papa teólogo, agora Emérito, ressaltou desde a
sua primeira Encíclica: «No início do ser cristão, não há uma decisão
ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com um
Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo.
A verdadeira novidade do Novo Testamento
não reside em novas ideias, mas na própria figura de Cristo, que dá
Carne e Sangue aos conceitos – um incrível realismo. Já no Antigo
Testamento, a novidade bíblica não consistia simplesmente em noções
abstratas, mas na ação imprevisível e, de certa forma, inaudita de Deus»
(BENTO XVI, Deus caritas est, nn. 1.12).
Por fim, como fugir a esta lógica de um
amor tão próximo a nós e que nos vocaciona a sermos identificados no
mundo por este amor transbordado? Se assim não fosse Jesus, Sacramento
do Amor do Pai, não teria revelado com a vida, palavras, gestos,
sofrimentos e silêncio a Essência da Nova e Eterna Religião, na qual o
relacionamento com o outro será sempre determinante para sermos ou não –
para Deus e os outros – reconhecidos como verdadeiros discípulos de
Jesus Cristo, como Ele mesmo deu a entender: «Nisto todos reconhecerão
que sois meus discípulos: no amor que tiverdes uns para com os outros»
(Jo 13, 35). Louvor e Glória ao Senhor!
Padre Fernando Santamaria – Comunidade Canção Nova
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