Irmãos e irmãs, é muito interessante o contexto
celebrativo, em que Nosso Senhor Jesus Cristo se comunica em Jo 10,
31-42. Aconteceu que o rei Antíoco IV Epífanes (cf. 1 Mc 4,36-59; 2 Mc
10,1-10) promoveu uma profanação do Templo, e a chamada “Festa da
Dedicação” fazia memória da reconsagração do Templo por volta de 164
a.C. Portanto, respirava-se um clima festivo de reconquista e
consagração.
Por tudo isso, um justo motivo de uma grande festa judaica. Convém
também lembrar que os cristãos da Comunidade joanina estavam diante de
um Evangelho escrito posteriormente à destruição definitiva do Templo de
Jerusalém (70 d.C.), por ocasião da invasão do exército romano.
Realidade prevista por Cristo, e não desejada, como testemunha o Santo
Evangelho: «Quando Jesus se aproximou de Jerusalém e viu a cidade,
começou a chorar. E disse: “Se tu também compreendesses hoje o que te
pode trazer a paz! Agora, porém, está escondido aos teus olhos! Dias
virão em que os inimigos farão trincheiras, te sitiarão e te apertarão
de todos os lados. Esmagarão a ti e a teus filhos, e não deixarão em ti
pedra sobre pedra, porque não reconheceste o tempo em que foste
visitada» (Lc 19, 41-44).
Palavra realista de um Deus apaixonado, que não podia impor a Sua
vontade e nem a Verdade! Mas também uma revelação que serve de alerta
para a responsabilidade humana e suas consequências perante as
indispensáveis visitas de Deus na história pessoal e universal. Ele que
continua a agraciar o povo amado de Deus e revelou-se como Deus Uno e
Trino: «Eu e o Pai somos um» (Jo 10, 30).
Jesus Cristo, um com o Pai, no Espírito Santo! Ele é a manifestação
do Mistério do Deus Triúno pelo seu ser, agir e falar, mas que espera
uma resposta de fé e adesão igualmente livre: «Se não faço as obras de
meu Pai, não acrediteis em mim. Mas, se eu as faço, mesmo que não
queirais crer em mim, crede nas minhas obras para que saibais e
reconheceis que o pai está em mim e eu no Pai» (vv. 37-38).
Assim Jesus se revela como sendo maior do que o venerável Templo,
ainda que o Senhor não o despreze. Ele se apresenta como o Dedicado e o
Consagrado por excelência do Pai, que O enviou para obras de Salvação. E
caso O quisessem destruir (matar), como de fato tentaram e conseguiram,
a Sua palavra e poder é quem dará sempre a última palavra, pois ela é
definitiva, e não a ignorância e maldade humana: «Destruí vós este
templo e em três dias eu o reerguerei» (Jo 2, 19).
Com outra palavra de vida eterna, Jesus Pascal iluminou também a
Semana Santa que se aproxima: «Ninguém me tira a vida, mas eu a dou por
própria vontade. Eu tenho poder de dá-la, como tenho poder de recebê-la
de novo. Tal é o encargo que recebi do meu Pai» (Jo 10, 18).
Na proximidade da Solenidade das solenidades – a Páscoa de Nosso
Senhor Jesus Cristo – somos convidados a um mergulho no Amor encarnado e
crucificado, que venceu o mal e a morte, reconquistando gratuitamente
para nós a nossa comunhão com Deus e entre nós. O único Redentor do
gênero humano consagrou-nos na Verdade que liberta (cf. Jo 17), isto
pela Sua oração, graça e Santo Batismo; também pelos méritos infinitos
mereceu-nos a participação numa festa eterna, atualizada, prefigurada e
antecipada por obra do Espírito Santo.
Realidades e possibilidades que nos convidam a uma participação ativa
e frutuosa na Sagrada Liturgia da Igreja, principalmente neste tempo
forte que se aproxima. Por isso, desde já, tenhamos uma Santa Semana em
torno do Mistério do Amor Pascal e não meçamos esforços para tomarmos
posse das graças alcançadas por Quem não mediu esforços para nos salvar!
Santa Páscoa! Louvor e Glória ao Senhor!
Padre Fernando Santamaria – Comunidade Canção Nova
Nenhum comentário:
Postar um comentário