No Evangelho de hoje (por sinal, o mesmo Evangelho do 5º
Domingo da Quaresma), a pergunta dos mestres da Lei tinha uma resposta
clara segundo a Torá e a tradição. Porém, existiam umas conclusões que
podiam colocar em situação crítica aquele que respondesse legalmente à
pergunta solicitada. Caso Jesus desse uma resposta afirmativa, ele seria
condenado pela autoridade romana como executor de uma sentença de
morte, à qual não tinha direito e, portanto, seria punido como um
assassino. Caso sua resposta fosse negativa, Jesus seria condenado como
quem despreza a Lei pátria e seu desprestígio seria máximo entre os
judeus ortodoxos, com uma reputação totalmente negativa que o aniquilava
como mestre em Israel.
Por isso, como bom Mestre, Jesus nada responde e se inclina para
escrever no chão como quem desenha letras sem sentido na terra. Ele se
desentende de um problema que não é seu e que não tem por que responder,
pois ele não tinha testemunhado o adultério e não era juiz no caso, que
como caso de morte seria o sinédrio quem o julgaria. Eram as
testemunhas que deviam atuar através da denúncia ao juiz e atirando as
primeiras pedras, para que o povo respondesse e assim evitar o mal que,
do contrário, contaminaria todo o povo (Dt 22, 22). É costume entre os
árabes fazer traços com o dedo quando o que estão escutando não é de seu
interesse. É possível que Jesus atuasse em consonância com esta última
suposição. Por isso os acusadores insistem.
Para entendermos a resposta de Jesus, devemos buscar precedentes na
tradição e na Lei. Já disse que são as testemunhas que deveriam ser as
primeiras pessoas a atirar as pedras – que deviam ser dirigidas ao
coração da vítima – para acabar de imediato com sua vida.
“Quem estiver sem pecado entre vós atire a primeira pedra”. Naquele
tempo, os homens adúlteros eram tantos que se deixou de aplicar a Lei.
Então, suas atitudes estavam em confronto com a posição do Mestre: o
“sem pecado” entre vós seja o primeiro a lhe atirar a pedra. Ninguém
esperava de Jesus esta resposta que respeita a Lei e não é um mandato,
mas um aviso e uma lição.
Meu irmão e minha irmã, nós que gostamos de julgar e condenar os
outros por pouco que façam de errado, não podemos e nem temos o direito
de julgar e condenar se somos culpados do mesmo delito. Veja que os
mestres da Lei atacaram a Jesus com a Lei. Mas Ele os contra-ataca com a
consciência, que é a lei suprema para todo homem em particular.
O que aconteceu ontem se repete em nossos dias. Que aconteceu dentro
da consciência dos acusadores? Por que começaram a se retirar, a começar
pelos mais velhos? Eles ficaram com a consciência pesada de tantos
pecados, e por isso fora saindo um por um. Os mais velhos foram os
primeiros.
Efetivamente, os jovens são como aqueles “discos antigos” em que o
pecado inicia seu caminho de vício e raia com a ação repetitiva a
consciência do indivíduo. Os mais velhos não são mais pecadores, mas os
que acumulam maior número de pecados. Os mais velhos entenderam por
experiência que agora eram eles, as testemunhas, as que passavam de
declarantes a juízes e o processo e a condenação estavam transferidos de
Jesus a eles mesmos. Jesus não poderia ser incriminado nem pela
negligência perante a lei de Moisés, nem pela execução de uma pessoa que
a lei romana não permitia na época.
A morte da adúltera não era o motivo principal da denúncia, pois o
que pretendiam era a implicação de Jesus na morte da mesma. Faltando
este último, o teatro urdido desmoronava como um castelo de cartas.
Falando do perdão, Santo Agostinho diz que no fim duas pessoas
estavam presentes na cena: a miséria e a misericórdia. Se ninguém a
condenava, Jesus tampouco a condena. A lei divina foi transformada por
esta sentença: sempre que o arrependimento seja sincero e acompanhe o
propósito de não pecar mais, o perdão será absoluto. O passado é apagado
e o futuro só depende do presente e das disposições do momento. A
memória servirá para enaltecer a bondade de Deus que perdoa, sem exigir
compensações e reditos pelo passado.
É assim que Deus faz conosco quando erramos. E Jesus nos ensina a
fazer quando os nossos nos ofendem. Portanto, a sabedoria de Jesus dá um
“xeque-mate” a quem pensava tê-lo apanhado. E é precisamente por meio
de uma consciência que aparentemente não funcionava, que os mais velhos
reconhecem seu erro e retiram sua denúncia.
Como está a sua consciência quando você censura o seu marido, esposa,
filho, filha, pais, vizinho, colega, funcionário – ou qualquer um com
quem você se encontra pelo caminho – pelos mesmos delitos que nós
usualmente cometemos (e talvez até mais graves do que aqueles que
conseguimos enxergar nos outros)?
Lembro a você que muitos erros que os outros cometem teriam solução
em nossa própria casa, se nós os assumíssemos como nossos e nos
empenhássemos a resolvê-los. Até porque neles somente os contemplamos
para criticá-los e não para ajudar na solução. Verdade ou mentira?
Levante os olhos e veja que o perdão divino é mais amplo do que nós
geralmente acreditamos. Só exige que tenhamos a vontade de não optar
mais pelo mal.
Paremos de olhar para os pecados dos outros e de formular um juízo de
condenação, pois os nossos pecados são maiores do que os dos outros. A
única diferença é que os nossos pecados são “invisíveis”, pois
dificilmente os vemos com nossos próprios olhos, ao passo que os dos
outros conseguimos sempre enxergar. Mas se nos colocamos no lugar do
outro, e nos propomos a ajudar para que o outro se levante e caminhe,
então teremos ganhado o nosso irmão e a nossa recompensa nos céus. Louvor e Glória ao Senhor!
Padre Bantu Mendonça- Canção Nova
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