O Evangelho em Mc 6, 14-29
nos apresenta a surpreendente e, ao mesmo tempo, espantosa motivação da
morte do Precursor do Messias, o qual comparou João Batista e
indicou-lhe como marco do Reino combatido e como o cumprimento do
retorno de Elias: «A partir dos dias de João Batista até agora, o
Reino dos Céus sofre violência, e violentos procuram arrebatá-lo. Pois
João foi o tempo das profecias – de todos os Profetas e da Lei. E, se
quereis aceitar, ele é o Elias que há de vir. Quem tem ouvidos ouça» (Mt 11, 12).
Infelizmente Herodes, Herodíades e sua
filha “Herodoida” (para não ficar sem nome), não quiseram acolher e
seguir os sinais de Deus, ou seja, tendo ouvidos não quiseram ouvir o
Senhor por intermédio do profeta. Também o Evangelho, longe de fazer da
ignorância um “oitavo sacramento”, demonstra o quanto o desconhecimento
verdadeiro do rosto de Deus, em Cristo, é e será sempre um grande
prejuízo ao ser humano. Assim testemunha o Evangelho: «O rei Herodes ouviu falar de Jesus, pois o nome dele tinha-se tornado muito conhecido. Alguns até diziam…» (Mc 6, 14).
O nome de Jesus é poderoso e salva quando
entendido como a Pessoa de Cristo sendo reconhecida, e não reduzido a
uma mera “informação” que entra pelos ouvidos e para na memória.
“Conhecer” e “reconhecer”, na Bíblia, traduz uma experiência e uma
relação que envolve pessoas. Para isto precisamos de fé e muito auxílio
do Espírito Santo de Deus, o qual nunca faltou para quem quer que fosse,
em todos os tempos e lugares.
Mas quem recusa o Deus que fala em nossa
consciência, antes de tudo, vai endurecendo o coração e o ouvido para a
Palavra e os Seus servos, por isso a família de Herodes – que
necessitava urgentemente de salvação – foi se fechando ao verdadeiro
amor do Pai, disposto a restaurar a sociedade a partir de cada pessoa e
família.
João Batista, docilmente, foi somente profeta para eles: «Pois
João vivia dizendo a Herodes: ‘Não te é permitido ter a mulher do teu
irmão’. Por isso Herodíades lhe tinha ódio e queria matá-lo, mas não
conseguia, pois Herodes temia João, sabendo que era homem justo e santo,
e até lhe dava proteção. Ele gostava muito de ouvi-lo, mas ficava
desconcertado» (Mc 6, 18-20). Donde nasceu tanta violência contra
um profeta do Reino de Deus? Até onde foi o gosto de Herodes pela escuta
da vontade do Senhor, o seu temor perante um mensageiro de Deus, também
para a sua família?
Poderíamos arriscar esta resposta: “Foi
até onde começava a entrega às suas paixões desorientadas, no adultério,
orgulhosa incapacidade de voltar, apego à própria imagem perante os
convidados e a falta de sensibilidade à vida alheia” (cf. Mc 6, 22.26).
É verdade que paixões todos nós as temos,
como a Igreja – perita em humanidade – tão bem ensina e expressa no
Catecismo: «O termo ‘paixão’ pertence ao patrimônio cristão. Os
sentimentos ou paixões são as emoções ou movimentos da sensibilidade. As
paixões são componentes naturais do psiquismo humano.
O mais fundamental é o amor, provocado
pela atração do bem. O amor causa o desejo do bem ausente e a esperança
de alcançá-lo. Este movimento tem o seu termo no prazer. “Amar é querer
bem a alguém”. Todos os outros afetos nascem, neste movimento original,
do coração do homem para o bem. Só o bem é amado. “As paixões são más se
o amor for mau, e boas se ele for bom”» (CIC nºs 1763-1766).
Assim, também nós temos a potencialidade
de agirmos como Herodes, Herodíades ou a “Herodoida” se não consagrarmos
constantemente as nossas paixões ao Espírito Santo que quer derramar
constantemente o verdadeiro amor nos nossos corações (cf. Rm 5,5).
Tomados pela Pessoa-Amor, as paixões pessoais e dos outros não nos
“endoidarão” ou nos instrumentalizarão, e a paixão fundamental – o amor –
conduzirá tudo para o bem.
Sabemos da parte de Deus e de João, que
ele acabou prefigurando também, com o seu “injusto” julgamento e morte, o
julgamento e morte de Jesus Cristo. No entanto, da parte dos agentes
daquele mal fica também o ensinamento para todos os tempos, a começar
para mim, que não basta ouvirmos o nome de Jesus nem admirarmos os
profetas de Deus, tampouco gostarmos de ouvi-los, É preciso
transcendermos os meios e ficarmos com o essencial anunciado: a Palavra
de Deus obedecida com a vida e a morte! Louvor e Glória ao Senhor!
Padre Fernando Santamaria – Comunidade Canção Nova
Nenhum comentário:
Postar um comentário