Quem verdadeiramente sou para Deus e seu plano de salvação e bênçãos? Quem nunca se perguntou… Eis um bom dia para tal!
O Evangelho de Mt 16, 13-19, para além de ser o coração e o gonzo do
Evangelho sinóptico mais completo e catequético, não deixa de apontar
pistas para responder as questões apresentadas no princípio desta nossa
partilha da Palavra. Claro que este trecho mateano registra a revelação
quanto às palavras fundantes do Novo Israel e quanto ao Primado de Pedro
frente aos demais Apóstolos, mas também fornecem elementos
existenciais, que apontam para o lugar, ou melhor, à Pessoa certa,
portadora de um Mistério que transpassa o nosso: «O Cristo, o Filho do
Deus vivo» (Mt 16, 16).
O Concílio Vaticano II, que não teve documento a tratar unicamente do
homem, no entanto considerou-o em todo o seu corpo textual, por isso
forneceu-nos também esta pérola polida e bem apresentada por sábias
expressões: «Na realidade, só no mistério do Verbo encarnado se
esclarece verdadeiramente o mistério do homem. Adão, o primeiro homem,
era efetivamente figura daquele futuro, isto é, de Cristo Senhor.
Cristo, novo Adão, na própria revelação do mistério do Pai e do seu
amor, revela o homem a si mesmo e descobre-lhe a sua vocação sublime»
(Constituição Pastoral Gaudium et Spes, nº 22).
Não foi esta a descoberta da pessoa de Simão? De quem ele poderia, já
adulto, receber um novo nome e missão? E qual destas duas realidades
permaneceria com Pedro no Céu? O ser ou o agir? De fato, as palavras de
Cristo iluminaram a sua existência e o seu agir como discípulo e
missionário da Boa Nova. Só Jesus, o Novo Adão poderia dizer assim ao
coração de Simão: «…tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha
Igreja, e as forças do Inferno não poderão vencê-la» (Mt 16, 18).
A descoberta que fazemos da nossa pessoa em Cristo, será sempre
surpreendente, comprometedora e de uma responsabilidade que ultrapassa
as nossas forças naturais, ainda que as suponham. Pensemos novamente em
Pedro: quando que seu ‘sim’ ao seguimento fiel a Cristo poderia supor
que ele seria escolhido para ser o primeiro Papa da Igreja de Cristo?
Nenhum Evangelista e Comunidade, criaria estas palavras e depositaria
sobre “as costas de alguém”: «Eu te darei as chaves do Reino dos Céus:
tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que
desligares na terra será desligado nos céus» (v. 19).
E não pensemos que tenha sido uma recompensa às palavras acertadas de
Simão, as quais o próprio Cristo deu a entender que não poderia ser
resultado dos estudos, nem de capacidades meramente humanas: « …porque
não foi carne e sangue quem te revelou isso, mas o meu Pai que está no
céu» (v. 17).
Também é preciso considerar pela Tradição Viva, história da Igreja
Católica e os fatos mais próximos do nosso tempo, que este lugar de
Pedro não seria insubstituível para o governo da Igreja. O Primado,
daquele que não é o primeiro entre os iguais, mas sim Chefe do Rebanho
universal, pai (Papa) para todos e mestre universal, necessitaria de
sucessão, passível até de uma declaração de renúncia. Isto foi e será
possível como ato livre, consciente e público, por parte de quem ocupe o
serviço de Vigário de Cristo, principalmente quando movido pela
razoabilidade, humildade, coragem correspondente à vontade de Deus e o
bem da Igreja, como fez o Papa Bento XVI.
Quanto a nós, ficamos interpelados pelo Evangelho de Mt 16, e
iluminados pelos últimos acontecimentos da Igreja de Cristo, os quais
nos apontam para o essencial, fundador e fundamento eterno da Igreja de
Cristo e sustentáculo do serviço eclesial. Neste tempo de Quaresma,
somos chamados mais do que servir ao Senhor e aos irmãos em Nome do
Senhor – até quando Ele quiser! – mas a redescobrirmos o nosso valor
enquanto pessoa, no encontro pessoal com Aquele único que é a Cabeça da
Igreja e o Pastor Eterno, insubstituível no ser e agir. Só Jesus, com o
Pai e o Espírito Santo!
Ele, antes de tudo, nos quer sendo e agindo, a partir do essencial:
nossa pertença a Ele! Nisto somos todos indispensáveis e
insubstituíveis: «Eu sou a videira e vós, os ramos. Aquele que permanece
em mim, como eu nele, esse dá muito fruto; pois sem mim, nada podeis
fazer» (Jo 15,5).
Padre Fernando Santamaria – Comunidade Canção Nova
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