A proximidade de Jesus com os
cobradores de impostos e os pecadores era mal vista pelos fariseus e
mestres da Lei. Por malevolência, faziam juízos apressados a respeito
dele, de forma a levá-lo a perder a credibilidade, tanto diante dos
discípulos quanto diante das multidões que o procuravam. Entretanto,
conviver com os pecadores e excluídos fazia parte da pedagogia de Jesus,
a fim de levá-los a converter-se ao Reino. Chama precisamente o
“evitado” por todos para fazê-lo também merecedor do Reino. A
solidariedade com os pecadores não se estendia aos pecados que cometiam,
mas sim à pessoa deles, pois era preciso também alertá-los para que
banissem de suas vidas tudo quanto os afastava de Deus.
Jesus acreditava, com todas as forças de
seu coração, na possibilidade de conversão do coração humano. Por isso,
empregava todos os meios disponíveis para atrair os pecadores para Deus,
mesmo correndo o risco de ser vítima da maledicência de seus
adversários. Menosprezando as críticas alheias, importava mostrar aos
pecadores a possibilidade de uma vida fundada na misericórdia e na
justiça. O caminho escolhido por Jesus foi o da solidariedade, que
revela como cada um de nós é tratado por Deus.
Os cobradores de impostos eram
marginalizados porque colaboravam com o poder opressor romano, e porque
tiravam o seu lucro cobrando a mais, através de extorsão. Jesus, quando
entra na casa de Mateus para uma refeição, misturando-se com outros
publicanos e pecadores, infringe prescrições fundamentais farisaicas e
entra em comunhão com essas pessoas marginalizadas.
O termo “pecadores” era um termo técnico
da época para membros de profissões desprezadas e consideradas
suscetíveis de impureza ritual. Uma lista indica pessoas que trabalhavam
com asnos ou camelos, marinheiros, pastores, comerciantes, médicos (por
causa do sangue), açougueiros, curtidores e cobradores de impostos como
membros dessa categoria de “pecadores”. Jesus se defende usando um
provérbio de bom senso, também conhecido nos escritos de outros autores
como Plutarco. Como o médico tem que se expor ao contágio para curar
doentes, o médico espiritual se expõe à impurezas legais para salvar os
marginalizados.
A misericórdia de Deus não somente
acolhe, mas vai em busca dos perdidos, e os reintegra na comunidade de
fé, como também mostra especialmente Lucas.
O texto pode nos levar a questionar a
nossa prática de misericórdia. Pois nós também criamos categorias de
“puros” e “impuros”, muitas vezes em nome de Deus. Sempre existe a
tendência de formar comunidades elitizadas, que se gabam de ser
praticantes, observadoras da Lei, e quem sabe, desprezam, sem que digam
ou notem isso, os que não correspondem aos seus critérios.
Como são tratadas as pessoas com
problemas de divórcio, de vícios, ou com uma outra orientação sexual, em
nossas comunidades? As nossas comunidades se assemelham a Jesus, que ia
atrás das pessoas taxadas de impuras no seu tempo, ou se assemelham aos
fariseus, que se fechavam nos seus rituais e rotulavam e marginalizavam
os outros – comunicando um Deus mais preocupado com a pureza ritual do
que com a misericórdia?
Jesus não condena o sacrifício e os
ritos, mas denuncia a situação quando o apego a eles leva ao abandono do
mandamento fundamental de misericórdia. Para todos nós ressoa
fortemente o desafio lançado por Jesus “aprendam, pois, o que significa:
Eu quero a misericórdia e não o sacrifício”.
Seja Jesus o nosso modelo de compaixão,
para não cairmos numa prática religiosa que rotula e marginaliza, em
nome de Deus, exatamente os que mais precisam sentir o seu rosto
misericordioso e compassivo. Louvor e Glória ao Senhor!
Padre Bantu Mendonça- Canção Nova
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