Estamos na Quaresma, tempo especial para treinarmos
aquilo que precisa compor o dia a dia do cristão, como é próprio de cada
tempo litúrgico: «A penitência se exprime de formas muito variadas, em
particular com o jejum, a oração, a esmola. Essas e muitas outras formas
de penitência podem ser praticadas na vida cotidiana do cristão, em
particular no tempo da Quaresma e no dia penitencial da sexta-feira»
(Compêndio CIC nº 301).
Um treinamento no essencial, que é recordado no Evangelho de Mt 9,
14-15, no qual, perante o questionamento dos discípulos do penitente
João Batista, Jesus Cristo indica a presença do Esposo, como Aquele que
dá sentido novo a todas as pessoas e práticas. Sinceramente, os judeus e
os discípulos do Batista eram “profissionais” das penitências, mas, ao
tratar de um sentido radical que pode tudo renovar, aí o Cristianismo
tem algo fundamental a acrescentar: «Acaso os convidados do casamento
podem estar de luto enquanto o noivo está com ele?» (Mt 9, 15).
Jesus é realmente o Emanuel esperado, a manifestação do Deus conosco
(cf. Mt 1, 23), mas, ao mesmo tempo, é o Deus-esposo de Israel, numa
linguagem esponsal e reveladora, bem conhecida pelo Antigo Testamento
(cf. Is 54, 4-8; Jr 2,2; Os 1-3). Isto porque, no Mistério de Cristo,
convergiram as promessas de um Deus fiel e próximo. O mais próximo e
presente do que nunca: «Não mais terás o nome de abandonada, nem tua
terra será chamada de Lugar Ermo. Ao contrário, serás chamada de Meu Bem
e tua terra será chamada de senhora, pois o Senhor se apaixonou por ti,
a tua terra estará casada» (Is 62, 4).
Voltemos, no entanto, a atenção para a expressão do Cristo que
enfatiza a palavra «convidados» primeiramente, ou seja, não tiranizados
nem laçados na rua. O amor próximo de Deus, revelado em Cristo Jesus,
atrai e quer conquistar, converter, mas não se impor. Outra
característica que precisa marcar todo e qualquer esforço quaresmal está
implícito na expressão «o noivo está com ele». Pode-se fazer paralelo à
definição de amor, ensinada por João, à Comunidade: «Nisto consiste o
amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e enviou
o seu Filho como oferenda de expiação pelos nossos pecados» (1Jo 4,
10).
O Pai das Misericórdias é quem quis, primeiramente, esta proximidade
do Filho com cada um de nós. Equivale dizer: É da Vontade de Deus que o
Esposo, Emanuel e Salvador, esteja conosco no tempo e seja a razão
profunda do nosso ser e agir. Por isso, a razão da nossa penitência será
sempre – precisa ser – uma resposta de amor que nos aproxima,
converte-nos Àquele que, antes de tudo e todos, quis livremente
aproximar-se de nós para nos amar e salvar. Nisto somos diferentes dos
judeus e de todos os outros religiosos do mundo que fazem penitência,
porque tudo para nós é por causa de Jesus! Por causa d’Ele vamos jejuar,
dar esmolas e nos empenhar numa vida de oração durante a Quaresma e não
só! Por amor tudo submetemos ao Senhorio de Cristo!
E a recompensa para tudo isto? Deus recompensará no oculto e na
plenitude. Ele é a motivação mais profunda e o prêmio mais desejado: «E,
quando tudo lhe estiver sujeito, então também o próprio Filho renderá
homenagem àquele que lhe sujeitou todas as coisas, a fim de que Deus
seja tudo em todos» (1Cor 15, 28). Por fim, na perícope que nos propomos
meditar também lemos: «Dias virão em que o noivo lhes será tirado.
Então jejuarão» (Mt 9, 15).
Como conjugar essa verdade com a garantia do Ressuscitado? «Eis que
estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos» (Mt 28,20).
Primeiramente, não esquecendo que a era apostólica, os responsáveis por
acolher e testemunhar a Revelação fundante do Verbo Encarnado e Pascal
foi única em sua experiência pessoal e comunitária com o Emanuel. Eles
tiveram que realmente jejuar, não somente pela falta de apetite, causado
da prisão, julgamento e morte física de Jesus na Cruz, causa de grande
angústia e solidão, mas jejuaram naqueles dias do verdadeiro Pão e
Alimento dado pelo Pai à humanidade (cf. Jo 6, 30-35). Por ocaisão da
Ressurreição, aí sim, os últimos versículos do Evangelho de Mateus
fundamentam que Jesus Cristo pode ser sempre o mesmo (cf. Hb 13, 8), em
múltiplas formas de presença.
Sobre isso o Papa Bento XVI, em sua inesquecível primeira encíclica,
quis também recordar: «Na sucessiva história da Igreja, o Senhor não
esteve ausente; incessantemente, vem ao nosso encontro por meio de
pessoas nas quais Ele se revela; por meio da Palavra, nos Sacramentos,
especialmente na Eucaristia. Na liturgia da Igreja, na oração desta, na
comunidade viva dos crentes, experimentamos o amor de Deus, sentimos a
sua presença e também, deste modo, aprendemos a reconhecê-la na nossa
vida cotidiana» (BENTO XVI, Deus caritas est nº 17). Por isto eles
jejuaram e nós também podemos jejuar, dar esmolas, intensificarmos a
nossa vida de oração e vivermos a Quaresma e toda a nossa vida.
Procuremos, com o auxílio do Espírito Santo, responder com amor o
Amor que nos visitou, desposou-nos e quis ficar conosco para sempre no
tempo e na eternidade.Louvor e Glória ao Senhor!
Padre Fernando Santamaria – Comunidade Canção Nova
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