Os evangelistas, cada um à
sua maneira, referem-se à questão da identidade de Jesus. A
interpretação dominante, entre os discípulos oriundos do Judaísmo, era
que Jesus seria o Messias davídico esperado conforme a tradição antiga
do Primeiro Testamento. O Senhor rejeita ser identificado como este
Messias (“Cristo”) restaurador do reinado de Davi. É o momento de deixar
isso claro.
A partir da interrogação sobre quem Ele
é, Jesus identifica-se como o “Filho do Homem”. Essa expressão, muito
frequente no livro de Ezequiel, refere-se à comum condição humana,
humilde e frágil. Enquanto “humano”, Jesus é vulnerável ao sofrimento e à
morte. A “necessidade” desse sofrimento não significa um determinismo,
mas as implicações inevitáveis decorrentes do compromisso libertador
assumido por Jesus.
Para Lucas, o que conta é a Ressurreição,
não a morte. Mesmo ao descrever a morte com traços vivos, destacando a
inocência de Jesus, seu caráter martirial, Lucas não lhe dá o sentido
soteriológico. Se, de fato, Lucas é um grego, então se pode ver nisto um
motivo para não apelar para a morte expiatória e vicária, pois esta era
teologia judaica. No contexto grego de Lucas é muito mais importante
ressaltar a Ressurreição, pois a morte para os gregos é loucura (1Cor
1,23).
“O Filho do Homem terá de sofrer
muito. Ele será rejeitado pelos líderes judeus, pelos chefes dos
sacerdotes e pelos mestres da Lei. Será morto e, no terceiro dia, será
ressuscitado” (Lc 9,22).
A morte de Jesus como vitória sobre o
sofrimento e, sobretudo, sobre os poderes da morte – e a de descer aos
infernos e lutar com a morte – era uma ideia bem conhecida no Oriente e
no Ocidente. Faz parte da mitologia de muitos povos que a aplicavam aos
seus heróis. Esta ideia penetrou no Judaísmo tardio e dali passou para o
Novo Testamento. Nesta mesma perspectiva, também Cristo tem vencido os
poderes da perdição (pecado). Ele conquistou a salvação descendo ao
reino dos mortos, libertando os que aí estavam presos desde de Adão até o
último homem.
“A concepção é de que Cristo, na hora de
sua morte, desce até ali e derrota – numa luta – o príncipe dos
demônios. No Novo Testamento encontram-se vestígios desta visão mítica.
Em Mt 27,51-53, narra-se que no momento da morte de Jesus “a terra tremeu e se fendeu, muitos mortos saíram de suas sepulturas e entraram na cidade”.
Assim Jesus, pela sua morte, liberta os mortos que lá estavam presos.
Com esta visão mítica, personifica-se o poder que age sobre a morte.
O diabo, a morte e as forças do mal se
confundem. A morte de Jesus assim é vista como resgate e a destruição
deste poder. Pela sua morte, Jesus destruiu a morte (1Cor 15,24.26; 2Ts
2,8; 2Tm 1,10; Hb 2,14). “Assim, pois, já que os filhos têm em comum
o sangue e a carne, também ele participou igualmente da mesma condição,
a fim de, por sua morte, reduzir à impotência aquele que detinha o
poder da morte, isto é, o diabo” (Hb 2,14).
Ao morrer, Jesus destruiu o poder da
morte, deixando o ser humano livre; no entanto, antes da Ressurreição
existe a cruz. E Ele quer advertir os seus para que fiquem preparardos
para ela. E diz: “Se alguém quer ser meu seguidor, que esqueça os
seus próprios interesses, esteja pronto cada dia para morrer como eu vou
morrer e me acompanhe. Pois quem põe os seus próprios interesses em
primeiro lugar nunca terá a vida verdadeira; mas quem esquece a si mesmo
por minha causa terá a vida verdadeira. O que adianta alguém ganhar o
mundo inteiro, mas perder a vida verdadeira e ser destruído?”
Neste tempo quaresmal, cada um de nós
está sendo convidado a segui-Lo, passando por tudo o que Ele passou, a
fim de que, no final, possamos ressuscitar com Ele para a eternidade. Louvor e Glória ao Senhor
Padre Bantu Mendonça- Canção Nova
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