Surpreende o fato de que o primeiro dos sinais, como São João chama
os milagres, tenha ocorrido numa festa de casamento. Uma visão estreita
do modo de Jesus agir teria esperado uma cura de um enfermo ou outros
prodígios que, de fato, o Senhor realizou. Aliás, gestos Seus foram, em
outra ocasião, questionados por uma mentalidade tacanha que pensava no
quanto poderia render o dinheiro gasto com bons perfumes usados como
gesto de delicadeza com o próprio Jesus (cf. Jo 12,1-8). Em Caná, o
milagre é o da alegria, símbolo dos tempos messiânicos. Deus não nos
quer apenas sem enfermidades ou assistidos em nossas necessidades
básicas, mas nos quer felizes daquela alegria, cuja fonte só se encontra
n'Ele. Jesus é Deus e pode tudo, mas não dispensa a participação
humana. Entram em cena a sensibilidade de Maria, os servos, o mordomo
que prova o vinho novo, o noivo elogiado e os espectadores de todos os
tempos, nos quais estamos incluídos, com nossas lutas, alegrias,
angústias e esperanças. Com elas poderemos, depois, voltar às propostas
de Caná.
Antes, algumas constatações. As diversas épocas da história trouxeram
impasses para as pessoas e os grupos, muitas vezes suscitando clamor
por soluções milagrosas. Também o mundo em que vivemos cria para si
mesmo encruzilhadas desafiadoras e são complicados os seus componentes.
Brincando com coisas sérias, dá-se um realce desproporcional aos
direitos individuais, sem dúvida importantes. Todos querem apenas exigir
a sua parte no bolo dos bens, sem pensar que vai faltar para alguém. A
avalanche do consumo e o endeusamento das leis de mercado, a desenfreada
busca do prazer e, daí por diante, geram um desconforto entre as várias
classes sociais, espalham a violência e criam perplexidade transformada
em perguntas sobre o futuro. De repente, o Brasil imenso, cultivando
uma imagem de imunidade diante da crise financeira internacional, começa
até a desconfiar que não é suficiente, nem mesmo o potencial energético
de que se considera detentor. A festa do consumo, a impunidade ou a
farra de uma imensa balada irresponsável se revelam frágeis. Até o justo
desejo de autonomia e desenvolvimento podem ficar comprometidos. De
repente, alguém percebe que o vinho acabou!
Mesmo no miúdo do dia a dia das famílias, dá para perceber que a
instabilidade das uniões e a fugacidade dos relacionamentos têm trazido
uma sensação de que algo não vai bem. É quase impossível, para quem tem
um mínimo de bom senso, não ver que o futuro de tantas crianças, cuja
imagem de família está absolutamente esfacelada, será desastroso. A
falta da sadia polarização entre homem e mulher, pai e mãe, já faz
sentir seus efeitos. Aberto o leque, muitas são as situações nas quais
nossa humanidade clama por milagres! Como desatar o nó do futuro? A nós
cristãos cabe o desafio de participar de todas as lutas e buscas de
saídas honrosas, dignas dos filhos e filhas de Deus.
Com sabedoria, o Papa Bento XVI alertava, no Dia Mundial da Paz -
2013, que "para sair da crise financeira e econômica atual, que provoca
um aumento das desigualdades, são necessárias pessoas, grupos,
instituições que promovam a vida, favorecendo a criatividade humana para
fazer da própria crise uma ocasião de discernimento e de um novo modelo
econômico. O modelo que prevaleceu nas últimas décadas, apostava na
busca da maximização do lucro e do consumo, numa óptica individualista e
egoísta que pretendia avaliar as pessoas apenas pela sua capacidade de
dar resposta às exigências da competitividade. Olhando de outra
perspectiva, porém, o sucesso verdadeiro e duradouro pode ser obtido com
a dádiva de si mesmo, dos seus dotes intelectuais, da própria
capacidade de iniciativa, já que o desenvolvimento econômico suportável,
isto é, autenticamente humano, tem necessidade do princípio da
gratuidade como expressão de fraternidade e da lógica do dom" (Bento
XVI, Mensagem para o dia Mundial da Paz 2013, n. 5).
Aqui estão algumas propostas "ingênuas", à disposição em Caná e na
Igreja. A receita do milagre vem da Virgem Maria. A última de suas
palavras registrada nos evangelhos parece testamento de quem ama muito
seus pósteros: "Fazei tudo o que Ele disser!" (Jo 2,5). Sua recomendação
precisa ressoar de novo em todos os recantos. Muito mais do que
milagres estrondosos, acreditamos num caminho a ser percorrido, cujo
nome é evangelização. Acreditar na Palavra de Jesus Cristo e colocá-la
em prática transforma as consciências, corações e obras. Quem faz esta
escolha cumpre todas as leis existentes, convive na sociedade, mas tudo
supera por implantar, onde que passe, a lei do amor a Deus e ao próximo.
Só que isso não faz barulho. É como árvore que cresce e se consolida
para produzir bons frutos.
Milagre consistente se faz com gestos simples. Encher talhas de água
ou sair pelas ruas e tratar chagas e consolar as pessoas, acolher o
drogado que alguém considera restolho na sociedade, buscar soluções para
idosos ou abandonados, sentar-se para ouvir, corrigir com ternura, não
complicar a vida, atender com boa vontade numa repartição, coisas de
servos, dos servos de Caná revividos em nós. Vale experimentar!
A recuperação do valor do Sacramento do Matrimônio, malgrado as
estatísticas, faz parte do receituário oferecido por Aquele que é médico
do corpo e do espírito. Na educação dos filhos, incluam os pais o valor
dos mandamentos, a dignidade da família unitária e estável, fiel e
fecunda. Quem olhar ao redor poderá encontrar bons exemplares dessa
"raça de gente", da melhor espécie de ser! O milagre pode estar ao
alcance de nossas mãos, depende só de nosso sim".
Por Dom Alberto Taveira Corrêa Arcebispo de Belém - PA
Fonte: cancaonova
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