O trabalho mais duro do mundo é não fazer nada
Após o pecado ter entrado na nossa história, Deus impôs ao homem “a
lei severa e redentora do trabalho”, como disse Paulo VI. “Comerás o teu
pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste
tirado” (Gn 3,19). A partir da tragédia do pecado original, o trabalho
passou a ser um veículo redentor para o homem, além de ser o meio pelo
qual ele é chamado a ser cooperador de Deus na obra da construção do
mundo.
Michel Quoist disse que “o trabalho não é uma punição, mas uma honra
que Deus concede aos homens. O Pai não quis acabar sozinho a criação,
por isso convida Sua criatura a colaborar com Ele”.
O Senhor derrama Sua graça sobre aquele que trabalha com diligência.
Este caminha para a perfeição. Não foi sem razão que Confúcio disse
certa vez: “Deus colocou o trabalho como sentinela da virtude”.
O trabalho traz para o homem uma misteriosa e agradável recompensa
que ninguém e nada pode tirar. O trabalho sério imprime, na própria
matéria, o espírito, e isto glorifica o Criador. Se com humildade
oferecemos a Ele o nosso trabalho, este adquire um valor eterno. Assim, o
temporal se transforma em eterno; e esta é a grande recompensa do
trabalhador. Esta reflexão nos deixa entrever todo o mal da preguiça.
Nenhum bem valioso e nenhuma virtude autêntica podem ser conquistadas
sem o trabalho diligente e paciente.
Lamentavelmente, criou-se também entre nós católicos a triste cultura
de se “ganhar a vida na sorte”, recorrendo-se às “senas” milionárias e
às loterias alienantes. Esta não é a vontade de Deus para o homem sobre a
Terra. “Ganharás o teu pão com o suor do teu rosto”, “quem não quiser
trabalhar, que não coma”, esta é a lei santa, severa e redentora do
Senhor. Querer viver sem trabalho é como desejar a própria maldição
nesta vida. Nos momentos mais críticos da vida é o trabalho a tábua da
salvação para todos nós.
Facilmente percebemos quantos males sociais advém do ócio e da
preguiça. Para compreender a sua gravidade ela é classificada como um
“pecado capital”.
Temos de entender a dignidade e a importância do trabalho humano no
plano de Deus. São Paulo disse aos tessalonicenses: “Procurai viver com
serenidade, trabalhando com vossas mãos, como vo-lo temos recomendado. É
assim que vivereis honrosamente em presença dos de fora e não sereis
pesados a ninguém”. (1Ts 4,11-12)
É tão importante o trabalho para o homem que o Talmud dos judeus diz:
“Nenhum trabalho, por mais humilde que seja, desonra o homem”. E ainda:
“Não ensinar ao filho a trabalhar é como ensinar-lhe a roubar”. E uma
máxima rabínica dizia que “o trabalho mais duro do mundo é não fazer
nada”.
O nosso grande João XXIII, de inesquecível memória, o gigante do
Vaticano II, disse certa vez: “O trabalho deve ser concebido e vivido
como vocação e missão, como tributo à civilização humana”.
A maior parte da nossa vida transcorre no trabalho de cada dia; seja
ele braçal ou mental, doméstico ou empresarial, profissional ou
particular. E o trabalho foi colocado em nossa vida por Deus como um
meio de santificação. Para nos mostrar sua importância fundamental,
Jesus trabalhou até os trinta anos naquela carpintaria humilde e santa
de Nazaré. E para nos mostrar que todo trabalho é importante, Ele
assumiu o trabalho mais humilde, o de carpinteiro, que era desprezado no
Seu tempo. São Bento de Núrcia tomou como lema da vida dos mosteiros
“Ora et Labora!” (Reza e Trabalha!).
O nosso Catecismo ensina que: “O trabalho não é uma penalidade, mas a
colaboração do homem e da mulher com Deus no aperfeiçoamento da criação
visível” (CIC, §378). Falando da vida oculta de Jesus na família,
quando de Sua visita à Terra Santa, o Papa Paulo VI disse em Nazaré: “
(…) uma lição de trabalho. Nazaré, ó casa do “Filho do Carpinteiro”, é
aqui que gostaríamos de compreender e celebrar a lei severa e redentora
do trabalho humano (…)” (05/01/1964).
O Fundador do “Opus Dei”, o Beato Monsenhor Escrivá de Balaguer,
dizia: “enquanto houver homens sobre a terra, por muito que se alterem
as técnicas de produção, haverá sempre um trabalho humano que os homens
poderão oferecer a Deus, que poderão santificar”. São Paulo disse aos
coríntios: “Quer comais ou bebais ou façais qualquer outra coisa, façais
tudo para a glória de Deus” (1Cor 10,31). Se até o simples comer e
beber devem dar glória a Deus, quanto mais o trabalho! Aos colossenses
São Paulo explica mais claro ainda: “Tudo quanto fizerdes, por palavra
ou por obra, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a
Deus Pai” (Cl 3,17).
É preciso notar bem esse “tudo quanto fizerdes”; nada fica de fora,
nada é profano na nossa vida. Tudo deve ser feito, sem preguiça e sem
lamúria, “em nome do Senhor”, isto é,“Nele” e “por Ele” para dar graças
ao Pai.
Um pouco adiante, o apóstolo insiste novamente: “Tudo o que fizerdes,
fazei-o de bom coração, como para o Senhor e não para os homens. Sabeis
que recebereis como recompensa a herança das mãos do Senhor. Servi ao
Senhor Jesus Cristo” (Cl 3,23).
“Fazei-o de bom coração”, quer dizer, fazer com amor e não por interesse; e “como para o Senhor não para os homens.”
Aqui está o ponto mais importante. Tudo o que fazemos deve ser feito
“para o Senhor” sem preguiça e sem reclamação para não perdermos o
mérito da boa ação. Não importa o que seja, se é grande ou pequeno, deve
ser feito tendo o Senhor como “Patrão”. Se você é lavadeira, então lave
cada camisa ou cada calça com todo o capricho, como se o próprio Jesus
fosse vesti-las. Se você é professor, prepare bem a sua aula, ministre-a
com capricho e sem preguiça, como se Jesus fosse um aluno que quer
aprender. Se você é um médico, atenda cada paciente sem preguiça e sem
má vontade, como se o próprio Jesus fosse o doente.
“Sabeis que recebereis como recompensa a herança das mãos do Senhor.”
Por Felipe Aquino
Fonte: cancaonova
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