João Batista foi preso por Herodes que, como os chefes
religiosos de Israel, temia a popularidade de João e a contestação que
fazia do sistema opressor sob o qual o povo vivia. Após a prisão, Jesus
retorna à Galileia, que é um território predominantemente gentílico.
Ali, Jesus desenvolve seu ministério com o mesmo anúncio de João
Batista: a proximidade do Reino e da conversão à justiça.
Marcos, bem como Mateus e Lucas, narram o chamado dos primeiros
discípulos às margens do Mar da Galileia. O Evangelho de João narra este
chamado já na ocasião do Batismo de Jesus, quando alguns discípulos de
João Batista se dispõem a seguir Cristo. O chamado, narrado em estilo
sumário, na realidade se fez num clima de diálogo e conhecimento mútuo.
Assim como Jesus abandonou sua rotina de vida em Nazaré, também seus
discípulos abandonam seu antigo sistema de vida, não para fugirem do
mundo, mas para iniciarem uma nova prática social alternativa de justiça
e paz.
Segundo a narração de Marcos (1,16-29) e de Mateus (4,18-22), o
cenário da vocação dos primeiros Apóstolos é o lago da Galileia. Jesus
acabara de iniciar a pregação do Reino de Deus, quando o seu olhar
pousou sobre dois pares de irmãos: Simão e André, Tiago e João. São
pescadores, empenhados no seu trabalho cotidiano. Lançam as redes,
consertam-nas. Mas outra pesca os aguarda.
Jesus chama-os com decisão e eles seguem-no imediatamente: agora
serão “pescadores de homens” (cf. Mc 1,17; Mt 4,19). Lucas, ainda que
siga a mesma tradição, faz uma narração mais elaborada (5,1-11). Ele
mostra o caminho de fé dos primeiros discípulos, esclarecendo que o
convite para o seguimento lhes chega depois de terem ouvido a primeira
pregação de Jesus e experimentam os primeiros sinais prodigiosos por Ele
realizados. Em particular, a pesca milagrosa constitui o contexto
imediato e oferece o símbolo da missão de pescadores de homens, que lhes
foi confiada. O destino destes “chamados”, de agora em diante, estará
intimamente ligado ao de Jesus. O apóstolo é um enviado mas, ainda
antes, um “perito” em Jesus.
Precisamente este é o aspecto realçado pelo evangelista João desde o
primeiro encontro de Jesus com os futuros Apóstolos. Aqui o cenário é
diferente. A presença dos futuros discípulos, provenientes também eles,
como Jesus da Galileia para viver a experiência do batismo administrado
por João, esclarece o seu mundo espiritual. Eram homens na expectativa
do Reino de Deus, desejosos de conhecer o Messias, cuja vinda estava
anunciada como iminente.
Para eles, é suficiente a orientação de João Batista que indica em
Jesus o Cordeiro de Deus (cf. Jo 1,36), para que surja neles o desejo de
um encontro pessoal com o Mestre. As frases do diálogo de Jesus com os
primeiros dois futuros Apóstolos são muito expressivas. À pergunta: “Que
procurais?”, eles respondem com outra pergunta: “Rabi (que quer dizer
Mestre), onde moras?”. A resposta de Jesus é um convite: “Vinde e vede”
(cf. Jo 1,38-39).
Vinde para poder ver. A aventura dos Apóstolos começa assim, como um
encontro de pessoas que se abrem reciprocamente. Começa para os
discípulos um conhecimento direto do Mestre. Veem onde Ele mora e
começam a conhecê-Lo. De fato, eles não deverão ser “anunciadores de uma
ideia”, mas “testemunhas de uma Pessoa”. Antes de serem enviados a
evangelizar, deverão “estar” com Jesus (cf. Mc 3,14), estabelecendo com
Ele um relacionamento pessoal. Sobre esta base, a evangelização não será
mais do que um anúncio daquilo que foi experimentado e um convite a
entrar no mistério da comunhão com Cristo (cf. 1 Jo 13).
A quem serão enviados os Apóstolos? No Evangelho parece que Jesus
limita a sua missão unicamente a Israel: “Não fui enviado senão às
ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 15,24). De modo análogo parece
que Ele circunscreve a missão confiada aos Doze: “Jesus enviou estes
Doze, depois de lhes ter dado as seguintes instruções: ‘Não sigais pelo
caminho dos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos. Ide,
primeiramente, às ovelhas perdidas da casa de Israel’” (Mt 10, 5s.).
Uma certa crítica moderna de inspiração racionalista tinha visto
nestas expressões a falta de uma consciência universalista do Nazareno.
Na realidade, elas devem ser compreendidas à luz da sua relação especial
com Israel, comunidade da Aliança, em continuidade com a história da
Salvação. Segundo a expectativa messiânica as promessas divinas,
imediatamente dirigidas a Israel, ter-se-iam concretizado quando o
próprio Deus, através do seu Eleito, reunisse o seu povo, como faz um
pastor com o rebanho: “Eu virei em socorro das minhas ovelhas, para que
elas não mais sejam saqueadas… Estabelecerei sobre elas um único pastor,
que as apascentará, o meu servo Davi; será ele que as levará a pastar e
lhes servirá de pastor. Eu, o Senhor, serei o seu Deus, e o meu servo
Davi será um príncipe no meio delas” (Ez 34,22-24).
Jesus é o pastor escatológico, que reúne as ovelhas perdidas da casa
de Israel e vai à procura delas, porque as conhece e ama (cf. Lc 15, 4-7
e Mt 18,12-14; cf. também a figura do Bom Pastor em Jo 10,11ss.).
Através desta “reunião” o Reino de Deus é anunciado a todas as nações:
“Manifestarei a minha glória entre as nações, e todas me verão executar a
minha justiça e aplicar a minha mão sobre eles” (Ez 39, 21). E Jesus
segue precisamente por este caminho profético.
O primeiro passo é a “reunião” do povo de Israel, para que assim
todas as nações, chamadas a reunirem-se na comunhão com o Senhor, possam
ver e crer.
Assim os Doze, chamados a participar na mesma missão de Jesus,
cooperam com o Pastor dos últimos tempos, indo também eles, em primeiro
lugar, até às ovelhas perdidas da casa de Israel, isto é, dirigindo-se
ao povo da promessa, cuja reunião é o sinal de salvação para todos os
povos, o início da universalização da Aliança. Longe de contradizer a
abertura universalista da ação messiânica do Nazareno, a inicial
limitação a Israel da sua missão – e da dos Doze – torna-se assim o seu
sinal profético mais eficaz.
Depois da Paixão e da Ressurreição de Cristo, este sinal será
esclarecido: o caráter universal da missão dos Apóstolos tornar-se-á
mais explícito. Cristo enviará os Apóstolos “a todo o mundo” (Mc 16,15),
a “todas as nações” (Mt 28,19; Lc 24,47), “até aos extremos confins da
terra” (At 1,8). E esta missão continua. Continua sempre o mandato do
Senhor de reunir os povos na unidade do seu amor. Esta é a nossa
esperança e este é também o nosso mandato: contribuir para esta
universalidade, para esta verdadeira unidade na riqueza das culturas, em
comunhão com o nosso verdadeiro Senhor Jesus Cristo. Louvor e Glória ao Senhor!
Padre Bantu Mendonça- Canção Nova
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