A Festa de Corpus Christi é a celebração
em que solenemente a Igreja comemora a instituição do Santíssimo
Sacramento da Eucaristia; sendo o único dia do ano que o Santíssimo
Sacramento sai em procissão às nossas ruas.
Propriamente é a Quinta-feira Santa o dia
da instituição, mas a lembrança da Paixão e Morte do Salvador não
permite uma celebração festiva. Por isso, é na Festa de Corpus Christi
que os fiéis agradecem e louvam a Deus pelo inestimável dom da
Eucaristia, na qual o próprio Senhor se faz presente como alimento e
remédio de nossa alma. A Eucaristia é fonte e centro de toda a vida
cristã. Nela está contido todo o tesouro espiritual da Igreja, o próprio
Cristo.
A Festa de Corpus Christi surgiu no séc.
XIII, na Diocese de Liège, na Bélgica, por iniciativa da freira Juliana
de Mont Cornillon, (†1258) que recebia visões nas quais o próprio Jesus
lhe pedia uma festa litúrgica anual em honra do sacramento da
Eucaristia.
Santa Juliana de Mont Cornillon, naquela
época priora da Abadia, nasceu em Retines perto de Liège, Bélgica em
1193. Ficou órfã muito pequena e foi educada pelas freiras Agostinas em
Mont Cornillon. Quando cresceu, fez sua profissão religiosa e mais tarde
foi superiora de sua comunidade. Morreu em 5 de abril de 1258, na casa
das monjas Cistercienses em Fosses e foi enterrada em Villiers.
Desde jovem, Santa Juliana teve uma
grande veneração ao Santíssimo Sacramento. E sempre esperava que se
tivesse uma festa especial em sua honra. Este desejo se diz ter
intensificado por uma visão que teve da Igreja sob a aparêncai de lua
cheia com uma mancha negra, que significada a ausência dessa solenidade.
Juliana comunicou estas aparições a Dom
Roberto de Thorete, o então Bispo de Lieja, também ao douto Dominico
Hugh, mais tarde Cardeal Legado dos Países Baixos e Jacques Pantaleón,
nessa época arquidiácono de Lieja, mais tarde o Papa Urbano IV.
O Bispo Roberto ficou impressionado e,
como nesse tempo os bispos tinham o direito de ordenar festas para suas
dioceses, invocou um sínodo em 1246 e ordenou que a celebração fosse
feita no ano seguinte. Um monge de nome João escreveu o ofício para essa
ocasão. O decreto está preservado em Binterim (Denkwürdigkeiten, V.I.
276), junto com algumas partes do ofício.
Dom Roberto não viveu para ser a
realização de sua ordem, já que morreu em 16 de outubro de 1246, mas a
festa foi celebrada pela primeira vez no ano seguinte na quinta-feira
posterior à festa da Santíssima Trindade. Mais tarde, um bispo alemão
conheceu o costume e o estendeu por toda a atual Alemanha.
Aconteceu, porém, que quando o Padre
Pedro de Praga, da Boêmia, celebrou uma Missa na cripta de Santa
Cristina, em Bolsena, Itália, aconteceu um milagre eucarístico: da
hóstia consagrada começaram a cair gotas de sangue sobre o corporal após
a consagração. Alguns dizem que isto ocorreu porque o padre teria
duvidado da presença real de Cristo na Eucaristia.
O Papa Urbano IV (1262-1264), que residia
em Orvieto, cidade próxima de Bolsena, onde vivia S. Tomás de Aquino,
informado do milagre, então, ordenou ao Bispo Giacomo que levasse as
relíquias de Bolsena a Orvieto. Isso foi feito em procissão. Quando o
Papa encontrou a Procissão na entrada de Orvieto, teria então
pronunciado diante da relíquia eucarística as palavras: “Corpus
Christi”.
Em 11 de agosto de 1264 o Papa emitiu a
bula “Transiturus de mundo”, onde prescreveu que na quinta-feira após a
oitava de Pentecostes, fosse oficialmente celebrada a festa em honra do
Corpo do Senhor.
Em seguida, segundo alguns biógrafos, o
Papa Urbano IV encarregou um ofício – a liturgia das horas – a São
Boaventura e a Santo Tomás de Aquino; quando o Pontífice começou a ler
em voz alta o ofício feito por Santo Tomás, São Boa-ventura foi rasgando
o seu em pedaços.
A morte do Papa Urbano IV (em 2 de
outubro de 1264), um pouco depois da publicação do decreto, prejudicou a
difusão da festa. Mas o Papa Clemente V tomou o assunto em suas mãos e,
no Concílio Geral de Viena (1311), ordenou mais uma vez a adoção desta
festa. Em 1317 é promulgada uma recompilação de leis -por João XXII- e
assim a festa é estendida a toda a Igreja.
Em 1290 foi construída a belíssima
Catedral de Orvieto, em pedras pretas e brancas, chamada de “Lírio das
Catedrais”. Antes disso, em 1247, realizou-se a primeira procissão
eucarística pelas ruas de Liège, como festa diocesana, tornando-se
depois uma festa litúrgica celebrada em toda a Bélgica, e depois, então,
em toda o mundo, no séc. XIV, quando o Papa Clemente V confirmou a Bula
de Urbano IV, tornando a Festa da Eucaristia um dever canônico mundial.
Em 1317, o Papa João XXII publicou na Constituição Clementina o dever de se levar a Eucaristia em procissão pelas vias públicas.
A partir da oficialização, a Festa de
Corpus Christi passou a ser celebrada todos os anos na primeira
quinta-feira após o domingo da Santíssima Trindade. A celebração
normalmente tem início com a missa, seguida pela procissão pelas ruas da
cidade, que se encerra com a bênção do Santíssimo.
Recomenda-se a todo católico participar
dessa Procissão por ser a mais importante de todas, pois é a única onde o
próprio Senhor sai às ruas para abençoar as pessoas, as famílias e a
cidade.
Em muitos lugares criou-se o belo costume
de enfeitar as casas com oratórios e flores e as ruas com tapetes
ornamentados, tudo em honra do Senhor que vem visitar o seu povo. Tudo
isto tem muito sentido e deve ser preservado.
Começaram assim as grandes procissões
eucarísticas e também o culto a Jesus Sacramentado foi incrementado no
mundo todo através das adorações solenes, das visitas mais assíduas às
Igrejas e da multiplicação das bênçãos com o Santíssimo no ostensório
por entre cânticos cada vez mais admiráveis.
Surgiram também os Congressos
Eucarísticos, as Quarenta Horas de Adoração e inúmeras outras homenagens
a Jesus na Eucaristia. Muitos se converteram e todo o mundo católico.
O culto eucarístico não começou no século
XIII, pois começou desde o Cenáculo, quando Jesus instituiu a sagrada
Eucaristia. Mas faltava, porém, uma festa especial para agradecer ao
“Prisioneiro dos Sacrários” esta presença inefável que o faz
contemporâneo de todas as gerações cristãs.
Era necessário, realmente, uma data
distinta para que se manifestasse um culto especial ao Corpo e Sangue de
Cristo, atraindo d’Ele novas graças e bênçãos para os que caminham
neste mundo.
As procissões
Nenhum dos decretos fala da procissão com
o Santíssimo como um aspecto da celebração. Porém estas procissões
foram dotadas de indulgências pelos Papas Martinho V e Eugênio IV, e se
fizeram bastante comuns a partir do século XIV.
A festa foi aceita em Cologne em 1306; em
Worms a adoptaram em 1315; em Strasburg em 1316. Na Inglaterra foi
introduzida da Bélgica entre 1320 e 1325. Nos Estados Unidos e nos
outros países a solenidade era celebrada no domingo depois do domingo da
Santíssima Trindade.
Na Igreja grega a festa de Corpus Christi
é conhecida nos calendários dos sírios, armênios, coptos, melquitas e
os rutínios da Galícia, Calábria e Sicília.
Finalmente, o Concílio de Trento declara
que muito piedosa e religiosamente foi introduzida na Igreja de Deus o
costume, que todos os anos, determinado dia festivo, seja celebrado este
excelso e venerável sacramento com singular veneração e solenidade; e
reverente e honorificamente seja levado em procissão pelas ruas e
lugares públicos. Nisto os cristãos expressam sua gratidão e memória por
tão inefável e verdadeiramente divino benefício, pelo qual se faz
novamente presente a vitória e triunfo sobre a morte e ressurreição de
Nosso Senhor Jesus Cristo.
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