ZP12020908 - 09-02-2012
Permalink: http://www.zenit.org/article-29675?l=portuguese
- post abaixo
ROMA, quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012(ZENIT.org)
-O médico Francesco Morrone, 34 anos, especialista em Pediatria
e Neonatologia falou ao ZENIT sobre o papel da fé no desenvolvimento de
seu trabalho. Dr Morrone atende na UTI Pediátrica da
Policlínica Umberto I, na cidade de Roma.
***
O senhor trabalha com as crianças, mas como se desenvolve a relação médico-pais?
Dr.Morrone:
A relação com os pais, mais do que a patologia comprovada de seus
filhos, requer grande capacidade de comunicação e acima de tudo uma
grande sensibilidade em relação ao ser humano por parte do médico. Eu
poderia até dizer que na maioria das vezes, em situações críticas, a
comunicação com os pais é a parte mais difícil do meu trabalho. No
começo, eu pensava que deveria apenas explicar bem e com um pouco de
cuidado, o que a criança estava vivendo e dizer quais eram os riscos que
iria enfrentar; mas quanto mais o tempo passa, mais eu percebo que cada
pai é diferente e traz consigo a bagagem de suas próprias ansiedades e
frustrações, especialmente quando se trata de um ser tão indefeso como o
recém-nascido que necessita de cuidados intensivos. Devemos, portanto,
aproximarmo-nos dos pais na ponta dos pés, tentando sempre que possível,
dar uma imagem realista da situação e, ao mesmo tempo assegurando-lhes
que você está fazendo o possível para a saúde da criança.
O que é mais importante nesta comunicação?
Dr.Morrone:
Um elemento importante na relação médico-pais é a maneira pela qual os
pais são sensibilizados para expressar suas preocupações sobre a
criança, seus próprios medos, levando em consideração os sentimentos
deles.
Em minha opinião, um médico que não tem a força para
partilhar esta dor e assumi-la, não pode realizar este trabalho, por
mais que seja cientificamente preparado.
Ser católico ajuda a dar sentido para esta dor?
Dr.Morrone:
Ser católico me ajuda a pensar que tenho diante de mim pessoas sofridas
e indefesas, que são a parte mais fraca da nossa sociedade, ou seja, o
próprio Cristo. Para dar sentido ao sofrimento deles, devemos respeitar o
sofrimento e dar a eles a dignidade que merecem; depois, você tem que
falar sobre Cristo e isso não é tarefa fácil em um hospital público como
o meu, na verdade, não é fácil, nem mesmo nos hospitais religiosos
porque as pessoas, hoje em dia, acham difícil acreditar nEle. Neste
sentido posso e devo crescer. Quando estou diante de casos
desesperadores, em que o recém-nascido corre risco de vida, posso
testemunhar que a fé é uma importantíssima ancora para estes pais, é a
única coisa que pode dar sentido à dor de uma perda tão grande.
É possível ver alguma diferença entre o tratamento de quem tem fé e de quem não tem fé?
Dr.Morrone:
Devo dizer que os pais que crêem enfrentam a dor com muita serenidade,
às vezes com uma força surpreendente que pode ser obtida somente a
partir do Altíssimo, e são para mim um grande testemunho de fé na
onipotência do Senhor, o único verdadeiro médico das almas e dos corpos.
Os que não crêem, com muita freqüência, abandonam-se ao desespero e não
aceitam a dor, que termina por esmagá-los. Isso faz com que a relação
médico-pais se torne mais delicada, mais complicada e muitas vezes
conflitante.
O senhor acredita que podemos oferecer nossos sofrimentos ao Senhor e Ele os utiliza para realizar milagres?
Dr.Morrone:
Tenho algumas experiências, mas não sei se seriam milagres, pelo menos
do ponto de vista científico, não posso ir tão longe, embora houvesse
alguns casos muito difíceis, que parecem ter sido resolvidos de maneira
excepcional, sem que a criança sofresse algumas deficiências como
resultado específico ou danos causados pela doença.
O Senhor já teve pacientes que viveram esta experiência?
Dr.Morrone:
Recordo-me de um caso que encheu meu coração: Gian Michele, um bebê
prematuro que nasceu com baixo peso e teve vários problemas; mais do que
uma vez foi milagrosamente salvo pelos médicos de plantão (uma vez por
mim mesmo). Depois de um período internado em nosso setor, quando a
situação era muito crítica e pensávamos o pior, os pais pediram para
batizá-lo, em preparação para uma possível despedida. Eles me escolheram
como o padrinho de batismo. Isso realmente tocou meu coração e a
cerimônia foi muito bonita. Aos poucos e para grande surpresa de todos,
Gian Michele ganhou peso e força, ele começou a respirar por conta
própria e não teve mais que utilizar máquinas de apoio. Agora, tem quase
um ano de idade, e cresceu muito, começa a pegar objetos e é muito
vivaz. Este é um pequeno milagre para mim!
A Igreja celebrará dia 11 de fevereiro, a Festa de Nossa
Senhora de Lourdes, e o XX Dia Mundial do Doente. O tema deste ano é
“Levanta-te e anda, a tua fé te salvou”. O que isto significa para o
senhor?
Dr.Morrone: Bem, a pergunta
introduz o grande tema da salvação que é uma cura muito maior. Na
verdade, eu acredito que seja a cura definitiva. O Senhor como médico da
alma é o nosso Salvador, aquele que muitas vezes sana a dor e a doença
do corpo, mas certamente cura as doenças da alma, as doenças mais
graves, as únicas que podem levar à morte, com M maiúscula, a morte
eterna.
O Papa lançou “O ano da fé” que terá inicio em outubro de
2012. Seria uma boa oportunidade para redescobrir a força e a beleza da
fé?
Dr.Morrone: O ano da fé deveria ser
todos os anos, porque sem fé não há relação com Deus. Chamar a atenção
para a nossa fé, dedicando um determinado ano pode ser uma grande
oportunidade, ajuda a redescobrir o valor da oração. Somente quem reza
realmente tem fé e quando a tempestade chega, o sofrimento; se não temos
raízes profundas, a nossa fé vacila e a nossa casa é destruída! Não
existem culturas católicas que se mantém: o crer genericamente em Deus
não basta. Se não o buscamos quotidianamente, se não confiamos
plenamente nEle, e se, as vezes, não “brigamos” com Ele, não
amadurecemos na fé.
O senhor poderia deixar uma mensagem aos leitores de ZENIT?
Dr.Morrone:
A fé é um dom maravilhoso da bondade de Deus e não uma conquista
pessoal gloriosa. Um dom que Deus dá a todos, basta estar disponível e
abandonar-se nEle.
Por Maria Emilia Marega
Nenhum comentário:
Postar um comentário