quinta-feira, 1 de março de 2018

Ganhar sem trabalhar?

Dom Fernando Arêas Rifan
Bispo da Administração Apostólica São João Maria Vianney

Na Quaresma, tempo de oração e penitência, a Igreja nos propõe como reflexão as tentações de Jesus no deserto. A primeira tentação, repelida por Jesus, é emblemática: disse o tentador: “manda que estas pedras se transformem em pães!” (Mt 4, 3). É a tentação de ganhar o pão, o sustento, sem trabalho! E a terceira tentação – “Tudo isso (os reinos e a riqueza) te darei, se prostrado me adorares” (Mt 4, 8-9) reforça a primeira: conseguir riqueza imoralmente.
A Sagrada Escritura, citada por Jesus para rejeitar essas tentações, nos ensina que o trabalho é obra de Deus. Deus, ao criar o homem, colocou-o no jardim do Éden para nele trabalhar: “O Senhor Deus tomou o homem e o colocou no jardim do Éden, para o cultivar e guardar” (Gn 2, 15). O trabalho existe, portanto, antes do pecado. Depois deste, passou a ter a conotação de penitência, pois adquiriu uma nota de dificuldade e o necessário esforço para desempenhá-lo: “Comerás o pão com o suor do teu rosto” (Gn 3,19). O meio, portanto, para se ganhar o pão, o sustento, é o trabalho. Por isso, São Paulo ensina: “Quem não quer trabalhar também não coma. Ora, temos ouvido falar que, entre vós, há alguns vivendo desordenadamente, sem fazer nada, mas intrometendo-se em tudo. A essas pessoas ordenamos e exortamos no Senhor Jesus Cristo que trabalhem tranquilamente e, assim, comam o seu próprio pão” (2 Ts 3, 10-12). Claro que existem diversas formas de trabalho: manual, braçal, intelectual, o do empresário, gerente, supervisor, o trabalho materno, etc. Até Jesus disse: “Meu Pai trabalha sempre, e eu também trabalho” (Jo 5, 17). “Quanto aos deserdados da fortuna, aprendam da Igreja que, segundo o juízo do próprio Deus, a pobreza não é um opróbrio e que se não deve corar por ter de ganhar o pão com o suor do seu rosto. É o que Jesus Cristo nosso Senhor confirmou com o seu exemplo. Ele que, ‘de muito rico que era, se fez indigente’ (2Cor 8,9) que quis passar aos olhos do mundo como filho dum carpinteiro, que chegou a consumir uma grande parte da sua vida no trabalho manual (Rerum Novarum, 15).
A corrupção, hoje generalizada, o que é senão querer ganhar o sustento, e muito mais, desmedidamente, sem trabalhar. Querer receber sem esforço. E até imoralmente. É a grande tentação do mundo de hoje, o tremendo mau exemplo dado pelos grandes! E não só a corrupção: o jogo, os trambiques, os roubos, os assaltos, a desonestidade nos negócios, a ambição, o desejo de ostentação, veem também do desejo desordenado de querer ganhar sem o devido trabalho. E até aqueles que, à espera de um milagre, não trabalham e esperam que Deus os ajude.
 “A raiz de todos os males é o amor ao dinheiro. Acossados pela cobiça, alguns se desviaram da Fé e se enredaram em muitas aflições” (São Paulo:1Tm 6,10). “Aquele que ama o ouro não estará isento de pecado; aquele que busca a corrupção será por ela cumulado. O ouro abateu a muitos… Bem-aventurado o rico que foi achado sem mácula… Quem é esse homem para que o felicitemos? Àquele que foi tentado pelo ouro e foi encontrado perfeito está reservada uma glória eterna… ele podia fazer o mal e não o fez” (Eclo 31, 5-10).
Fonte: CNBB

Mandamentos

Dom José Alberto Moura
Arcebispo de Montes Claros (MG)


Falar em mandamentos, normas e exigências éticas e morais muitas vezes se torna odioso diante da vontade pessoal, da vontade de autodeterminação e escolha sem exigências. Até religiões e grupos mais exigentes nessa perspectiva são deixados de lado para uma vida pessoal e relacional mais relaxada. Buscam-se, às vezes, religiões mais convenientes ao consumo pessoal sem muito compromisso com a transformação da conduta pessoal e social. A autonomia para se fazer o que se quer, sem necessidade de seguir preceitos, é muito comum e desastroso na atualidade. O “eu quero e preciso ser feliz” às vezes não contempla um ideal mais elevado a se conquistar, em vista de valores mais duradouros e que superem a delícia ou o bem estar considerado no gozo efêmero de algo que traga momentaneamente algum prazer ou benefício. Nem sempre se quer sacrificar tempo, benefício instintivo ou satisfação de instintos em bem de busca de algo, valor, altivez de caráter e grandeza de ideal. A felicidade de um valor conquistado com renúncias de satisfações momentâneas é muito maior do que essas mesmas satisfações. Aliás, sem prática e exercitação que exigem sacrifício, não se conquista um ideal ou felicidade duradoura, em vista daquele valor maior.
Por outro lado, não vivemos só de vantagens instintivas passageiras. No convívio humano temos que obedecer a regras e princípios que  nos tornam mais humanos e solidários. Por não se obedecerem às regras de trânsito, em sua grande parte, mais de cinquenta mil pessoas morreram nas estradas do Brasil no ano passado. A violência levou à prática de mais de sessenta mil pessoas assassinadas nesse mesmo ano. Parece estarmos em verdadeira guerra civil, com mortes até em número maior do que em países que vivem em guerra declarada!
Deus nos dá mandamentos que são libertadores e nos causam um bem amplo (Cf. Êxodo 20,1-17).  Jesus explicita bem os mandamentos, com o exemplo pessoal de só fazer o bem a todos. Quem desobedece aos mandamentos divinos, perde muito em realização própria e de serviço a uma convivência humana no planeta. Quem quer só fazer as próprias leis individuais e sociais, desrespeitando as divinas, tira o enfoque do sentido da vida. A base dos mandamentos divinos está no amor amplo e causador da felicidade geral do ser humano. Ao contrário, vemos a prática do egoísmo, que leva a todos os desmandos: guerras, ódios, injustiças, exclusões, incompreensões, fome, miséria, violência e todo tipo de desumanidade.
Por isso, toda pessoa de bem e boa reflexão vai se colocar como verdadeira discípula da causa e da prática do amor, tornando-se missionária ou anunciadora dos valores dos mandamentos ou orientações divinas para o bem de todos, da defesa da vida e do meio ambiente.
O apóstolo Paulo não tem medo de apregoar a necessidade da imitação de Cristo que assumiu o sacrifício de si, até com o martírio, para realizar o projeto de Deus Pai (Cf. 1 Coríntios 1,21-25). Querer a felicidade da conquista de um ideal maior de vida exige a sintonia com o projeto divino, mas tendo-se que fazer a ascese, ou exercitação na prática dos valores divino-humanos.
Fonte: CNBB

Santo do Dia : São Rosendo - Jovem bispo de Mondoñedo

São Rosendo, deixou por onde passou muitos filhos espirituais

São Rosendo nasceu no ano de 907, em Monte Córdova, dentro de uma família muito religiosa. Seus pais foram o Conde D. Guterre Mendez de Árias e Santa Ilduara.
Adolescente, passou Rosendo a Mondoñedo, onde seu tio paterno, Savarico, era bispo. É de presumir que tenha prosseguido os estudos nalgum mosteiro beneditino.
Em 925, apenas com dezoito anos, sucede ao bispo de Mondoñedo, sendo muito bem recebido. Esforçou-se por restabelecer e e consolidar a paz, reconstruindo – ajudado pelos pais – os mosteiros e igrejas que tinham sofrido com a desordem. Assim serenou e conquistou os abades de toda a Galiza, que formavam a nobreza eclesiástica; e atraiu a nobreza civil, a que estava muito ligado pelo sangue. Libertou os escravos dependentes da mitra e trabalhou para que os outros senhores fizessem o mesmo; ficou sendo o pai de todos os libertos.
Depois de ser bispo de Mondoñedo, passou a sê-lo de Dume. Veio a Portugal visitar o mosteiro em que era abadessa sua parente, Santa Senhorinha. Desejando apresentar uma comunidade-modelo, conseguiu regressar e edificar um grande mosteiro, depois de um irmão e uma prima lhe terem cedido a quinta de Villar, na diocese de Orense. Obteve doações de ricos e pobres, sobretudo da mãe. Ao fim de oito anos de construção, num domingo do ano de 942 inaugurou a casa, que se ficou chamando Celanova: recebeu as felicitações de 11 bispos da Galiza e de Leão; foi saudado por 24 condes; prestaram-lhe homenagem muitos abades, presbíteros, diáconos e monges; e ouviu os aplausos da multidão.
Ficou abade de Celanova o monge Franquila. E São Rosendo voltou a Mondoñedo a extinguir rancores, sufocar conspirações, acalmar avarezas e pacificar famílias. Entre 944 e 948, depois de renunciar o bispado, retirou-se para Celanova. Mas foi preciso que substituísse alguns parentes seus, na autoridade que lhes pertencera, pois esses tinham-se revoltado contra Ordonho III (955). Administrou a diocese de Iria-Compostela pelo ano de 970, quando a região era assolada por violentas incursões normandas.
Veio a falecer em Celanova, no 1º de março de 977, com testamento que reflete fé, ciência escriturística, humildade, amor à Ordem Beneditina, predileção por Celanova e desejo de viver na eternidade como vivera os seus dias de afadigado peregrinar na terra: “sob a providência de Deus”.
São Rosendo, rogai por nós!

Liturgia Diária: 2ª Semana da Quaresma - Quinta-feira

Primeira Leitura (Jr 17,5-10)
Leitura do Livro do Profeta Jeremias.
5Isto diz o Senhor: “Maldito o homem que confia no homem e faz consistir sua força na carne humana, enquanto o seu coração se afasta do Senhor; 6como os cardos no deserto, ele não vê chegar a floração, prefere vegetar na secura do ermo, em região salobra e desabitada. 7Bendito o homem que confia no Senhor, cuja esperança é o Senhor; 8é como a árvore plantada junto às águas, que estende as raízes em busca da umidade, e por isso não teme a chegada do calor: sua folhagem mantém-se verde, não sofre míngua em tempo de seca e nunca deixa de dar frutos.
9Em tudo é enganador o coração, e isto é incurável; quem poderá conhecê-lo? 10Eu sou o Senhor, que perscruto o coração e provo os sentimentos, que dou a cada qual conforme o seu proceder e conforme o fruto de suas obras”.
- Palavra do Senhor.
- Graças a Deus.

Salmo de Hoje : Responsório (Sl 1)


— É feliz quem a Deus se confia!
— É feliz quem a Deus se confia!
— Feliz é todo aquele que não anda conforme os conselhos dos perversos; que não entra no caminho dos malvados, nem junto aos zombadores vai sentar-se; mas encontra seu prazer na lei de Deus e a medita, dia e noite, sem cessar.
— Eis que ele é semelhante a uma árvore, que à beira da torrente está plantada; ela sempre dá seus frutos a seu tempo, e jamais as suas folhas vão murchar. Eis que tudo o que ele faz vai prosperar.
— Mas bem outra é a sorte dos perversos. Ao contrário, são iguais à palha seca espalhada e dispersada pelo vento. Pois Deus vigia o caminho dos eleitos, mas a estrada dos malvados leva à morte.

Compreendendo e Refletindo

O homem precisa confiar e entregar o seu coração ao Senhor

“Maldito o homem que confia no homem e faz consistir sua força na carne humana, enquanto o seu coração se afasta do Senhor” (Jr 17, 5-10).
Nós, seres humanos, precisamos de relacionamentos humanos, eles são importantíssimos para a nossa vida. São dos relacionamentos humanos que nascem os “enamorados” e, é deles que surgem o amor e nesse brotam as nossas famílias, o casamento, a união do homem e da mulher.
Dos relacionamentos é que surgem belas e importantes amizades. Ninguém pode ser sozinho nesta vida e todos nós precisamos nos relacionar; é preciso apenas ter prudência e saber separar as coisas e colocar cada uma em seu devido lugar.
Todo exagero, toda amizade demasiada, todo amor que não tem medida, tornam-se um “sufoco” para a nossa vida. E isso nos prejudica, porque, aquilo que nos sufoca pode nos matar; pode matar os nossos relacionamentos e algo que era para ser belo, se destrói, pois, na verdade, não tenho uma”poda”, uma direção.
A primeira coisa é que não podemos amar a ninguém, mais do que amamos a Deus. Ele é o grande amor da nossa vida, nosso grande amigo, nosso suporte, nosso apoio, nossa direção, é n’Ele que deve estar o nosso coração e a confiança de toda a nossa vida.
Coloque no Senhor a sua confiança, e a segurança de que é Ele que vai direcionar o seu coração, inclusive nos relacionamentos que nós devemos ter, por exemplo, no relacionamento familiar, no amor do marido para com a esposa e vice-versa, nas amizades que nós construímos; e não deixe que ninguém ocupe o lugar de Deus no seu coração.
Enquanto Deus for o maior amor, o primeiro amor e Aquele que direciona o seu coração, então, os outros amores da vida serão conduzidos, iluminados e direcionados pelo amor de Deus, dessa forma, não iremos nos decepcionar tanto, cair tanto e passar por tormentos que muitas vezes passamos.
A segunda coisa importante é que nenhum relacionamento pode nos afastar de Deus e não podemos permitir que ninguém nos afaste d’Ele. As vezes criamos relacionamentos onde aquela pessoa é tudo para nós, ou seja, só escuto, falo e fico o tempo inteiro com ela; e isso me prende, me aperta e o pior, muitas vezes nos afastam de Deus.
A maldição está aí: confiar em outra pessoa e deixar que esse relacionamento nos afaste do amor a Deus; Daquele que, de verdade, cuida de mim.
Boas amizades? Sim. Mas, jamais amizades demasiadas e, sobretudo, aquelas que não nos conduz para mais perto do Senhor.
Deus abençoe você!
Padre Roger Araújo- Canção Nova

Evangelho (Lc 16,19-31)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Lucas.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, disse Jesus aos fariseus: 19“Havia um homem rico, que se vestia com roupas finas e elegantes e fazia festas esplêndidas todos os dias.
20Um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, estava no chão, à porta do rico. 21Ele queria matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico. E, além disso, vinham os cachorros lamber suas feridas.
22Quando o pobre morreu, os anjos levaram-no para junto de Abraão. Morreu também o rico e foi enterrado. 23Na região dos mortos, no meio dos tormentos, o rico levantou os olhos e viu de longe a Abraão, com Lázaro ao seu lado. 24Então gritou: ‘Pai Abraão, tem piedade de mim! Manda Lázaro molhar a ponta do dedo para me refrescar a língua, porque sofro muito nestas chamas’.
25Mas Abraão respondeu: ‘Filho, lembra-te de que recebeste teus bens durante a vida e Lázaro, por sua vez, os males. Agora, porém, ele encontra aqui consolo e tu és atormentado. 26E, além disso, há um grande abismo entre nós: por mais que alguém desejasse, não poderia passar daqui para junto de vós, e nem os daí poderiam atravessar até nós’.
27O rico insistiu: ‘Pai, eu te suplico, manda Lázaro à casa do meu pai, 28porque eu tenho cinco irmãos. Manda preveni-los, para que não venham também eles para este lugar de tormento’. 29Mas Abraão respondeu: ‘Eles têm Moisés e os Profetas, que os escutem!’
30O rico insistiu: ‘Não, Pai Abraão, mas se um dos mortos for até eles, certamente vão se converter’. 31Mas Abraão lhe disse: ‘Se não escutam a Moisés, nem aos Profetas, eles não acreditarão, mesmo que alguém ressuscite dos mortos”’.
— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.